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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

VIOLÊNCIA/NEGROS - Meninos negros demonstram sua vitimização contundente no Trabalho Infantil

MAPEAMENTO INÉDITO

Meninos negros são principais vítimas do trabalho infantil, aponta estudo

(imagem - foto colorida de um menino negro que carrega um tronco de árvore nos ombros, tendo um machado em sua mão direita, uma fotografia retirada da Internet na pesquisa: meninos carvoeiros, já que as carvoarias são uma das principais denúncias de trabalho infantil negligenciado)

Meninos negros são as principais vítimas do trabalho infantil: 5,8% dessa população, de 5 a 15 anos, desenvolve algum tipo de trabalho no Brasil, de acordo com a primeira publicação do Sistema Nacional de Indicadores em Direitos Humanos, divulgada nessa quinta-feira (11/12) pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR). Entre meninos brancos, a taxa de ocupação da mesma faixa etária é 3,7%. Entre as mulheres, a taxa é 2,9% entre as negras e 2% entre as brancas.

O trabalho de crianças e adolescentes é proibido pela Constituição Federal. O trabalho, em geral, é admitido a partir dos 16 anos, exceto nos casos de trabalho noturno, perigoso ou insalubre, nos quais a idade mínima é 18 anos. A partir dos 14 anos é permitido trabalhar somente na condição de aprendiz.
Os dados gerais mostram que a taxa de trabalho infantil no Brasil caiu de 7,5%, em 2004, para 3,8%, em 2013. Em relação a 2012, houve redução de 0,3%. As regiões Norte e Nordeste lideram o ranking com 5,3% e 4,9% de criaças e jovens ocupados, respectivamente. A taxa de ocupação entre a população negra é 5,6% no Norte e 5,3% no Nordeste. Entre os brancos, a taxa é 3,8% no Nordeste e 3,5% no Norte. A Região Sul apresenta taxa total de 4,1%, o Centro-Oeste, de 3,8% e o Sudeste, de 2,4%.
Entre os estados, o Maranhão aparece em primeiro lugar em exploração do trabalho infantil, com percentual de ocupação de 7,4% de crianças e adolescentes. Na outra ponta, o Distrito Federal tem o menor índice: 0,7%.
Os dados foram mapeados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e essa é a primeira vez que o trabalho infantil é analisado conforme parâmetros da 19ª Conferência Internacional de Estatísticos do Trabalho, o que permitirá a comparação com outros países. O objetivo é monitorar e mensurar os direitos humanos no Brasil. Para os próximos meses, está prevista a divulgação de estudos referentes a alimentação, educação e participação em assuntos públicos, dentre outros.
"É absolutamente impossível fazer qualquer tipo de política pública correta, adequada, se não se tem a dimensão do que se deve atingir, qual o problema que se deve superar, onde está localizado e em qual dimensão", explica a ministra da SDH, Ideli Salvati. Ela diz ainda que "é impossível atuar e ter condição de medir o que se está fazendo, se o que se está fazendo está dando os resultados que se deseja sem os indicadores confiáveis".
FONTES - http://www.conjur.com.br/2014-dez-14/meninos-negros-sao-principais-vitimas-trabalho-infantil Com informações da Agência Brasil.
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RACISMOS, NEGRITUDES E INTOLERÂNCIAS, CONSCIÊNCIA PARA QUÊ? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2014/11/racismos-negritudes-e-intolerancias.html

domingo, 2 de novembro de 2014

BIOÉTICA/ÉTICA MÉDICA - Podem os médicos se recusarem a cuidar do EBOLA?? a visão de um advogado

Até que ponto médicos têm obrigação de tratar pessoas com ebola?

O presidente do Banco Mundial fez um apelo para que profissionais de saúde se voluntariem para a batalha contra o ebola, invocando seu juramento de ajudar pacientes. Mas existe esta obrigação? Daniel Sokol, especialista em ética médica, diz que devemos esperar que alguns profissionais se recusem a ir ao trabalho onde hajam pacientes com ebola sendo tratados.
AFP
(imagem - foto colorida da matéria da  BBC, com um profissional de saúde, vestindo sua roupa branca, com luvas azuis, totalmente isolante, com todo o corpo protegido, colocando a mão em uma pessoa negra deitada em uma maca, onde recebe medicação intravenosa)
"Quando vários casos de ebola emergem em um determinado país, é ingênuo pensar que nenhum profissional de saúde se recusará a ir ao trabalho.
Em todas as grandes epidemias de ebola, profissionais de saúde deixaram de trabalhar em centros de tratamento, deixando pacientes à beira da morte para trás. Esta não é exceção.
Ao ver colegas sucumbirem à doença, muitos médicos, enfermeiras e técnicos de laboratório deixaram de comparecer ao trabalho, colocando ainda mais pressão sobre aqueles que foram trabalhar.
Em 2003, eu trabalhava como um residente em ética clínica em um hospital de Toronto, no Canadá. Esta foi a cidade mais afetada pela gripe aviária fora da Ásia, com cerca de 250 pessoas infectadas.
Destes, metade eram profissionais de saúde. Cartazes nas paredes do hospital saudavam os membros da equipe como heróis.
Na realidade, muito deles estavam estigmatizados por sua comunidade. Alguns profissionais de saúde de Toronto não foram trabalhar temendo por sua própria saúde e de sua família, e alguns reclamaram que seus colegas em um hospital próximo recebiam um pagamento extra pelo perigo de cuidar de pacientes com a gripe enquanto eles não recebiam nada.
Este era um dos melhores hospitais do mundo, com instalações maravilhosas e uma equipe muito bem treinada. A taxa de mortalidade era de 16%.
Na atual epidemia de ebola, profissionais de saúde também foram afetados, mas, em contraste com a situação em Toronto, a infraestrutura médica em países africanos é precária e os hospitais carecem de profissionais. A taxa de mortalidade é de cerca de 55%.
As equipes médicas enfrentam o risco de ostracismo e violência por parte da população local hostil. Muitos profissionais ganham muito pouco e, em alguns casos, não recebem salários há meses.
Na epidemia de ebola em Uganda em 2000, houve um grande protesto no hospital St. Mary, na cidade de Lacor.
Depois da morte de vários profissionais do hospital, cerca de 400 membros de sua equipe se reuniram na frente do hospital, ameaçando deixar de ir trabalhar.
Matthew Lukwiya, o superintendente médico do hospital, os convenceu a ficar. Pouco depois, ele contraiu a doença depois de cuidar de uma enfermeira infectada sem usar óculos de proteção e morreu.
Dado o alto risco, as condições de trabalho ruins e o estigma de cuidar de pacientes de ebola, não é uma surpresa que muitos profissionais de saúde tenham deixado os epicentros da epidemia de ebola e que outros relutem em se unir ao combate ao vírus.
O juramento hipocrático data do século 5 a.C. e não trata de como médicos devem se comportar em caso de epidemias. Além disso, apenas uma minoria dos médicos faz o juramento ao se formar.
No Reino Unido, o Conselho Geral de Medicina diz que um médico "não pode negar tratamento a pacientes se sua condição os colocar em risco".
Diante dos recursos britânicos, é improvável que o ebola represente um grande risco para profissionais de saúde, mas, em partes da África onde faltam até mesmo luvas de borracha, a situação é bem diferente.
Em troca do oneroso dever imposto pelo conselho de medicina, médicos britânicos esperam que as autoridades forneçam treinamento, pagamento e equipamentos adequados.
Ainda assim, para muitos dos médicos que lutam contra o ebola, nada disso foi oferecido.
Estes profissionais têm o dever de cuidar de pacientes, mas esse dever tem limites.
Há uma série de fatores que determinam estes limites. Um deles é o nível de risco ao qual o profissional será submetido.
Trabalhar em hospitais mal equipados e que carecem de profissionais é mais arriscado do que fazer o mesmo em um hospital moderno.
Outro fator é o dever com outros pacientes. O ebola não impediu que pessoas padeçam de outros males.
Um médico que morre por causa de ebola não pode cuidar de outros pacientes. Há apenas cerca de 50 médicos na Libéria para uma população de 4 milhões. A perda de um único médico é um desastre de saúde pública.
Por fim, estes profissionais também têm deveres com suas famílias e comunidades. Um médico não é apenas um médico, mas também um pai, um filho, um irmão, um líder comunitário e assim por diante. Cada um destes papéis traz deveres. Então, o dever médico com um paciente deve ser mais importante do que o dever com seus filhos?
Alguns gestos vão além do que o dever exige. Muitos profissionais cuidando de pacientes de ebola em péssimas condições, apesar do risco para eles próprios, estão agindo além deste dever. Eles merecem ser parabenizados.
Para os outros, que decidiram manterem-se longes, devemos ter cuidado ao criticá-los antes de considerar as circunstâncias individuais."
Daniel Sokol, PhD, um advogado especializado em bioética de Londres, no Reino Unido.
FONTE - http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141028_medicos_ebola_obrigacao_tratamento_rb 
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SAÚDE MENTAL: quando a Bioética se encontra com a Resiliência. http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/10/saude-mental-quando-bioetica-se_11.html

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

RACISMO/LEGISLAÇÃO - Nova lei Anti racismos mais severa é proposta na Câmara Federal

Casos recentes de racismo levam a defesa de lei mais severa para punir preconceito

Projeto que revoga a atual Lei Antirracismo para estabelecer regras mais duras está pronto para votação no Plenário da Câmara dos Deputados

Ator negro permanece preso por duas semanas no Rio de Janeiro após ser acusado erroneamente de roubo. Manicure negra em Brasília é ofendida por cliente que se recusa a ser atendida por ela. Cobradora de ônibus negra é xingada na capital federal. São casos recentes de racismo que viraram manchete e reacenderam a discussão sobre a legislação brasileira a respeito do tema.
Há 25 anos, o País definiu o crime de racismo, indicado na Constituição, como inafiançável e imprescritível (Lei 7.716/89). Ao longo dos anos, a norma passou por modificações, ampliando as possibilidades de enquadramento na prática criminosa, caracterizada, por exemplo, pelo impedimento de acesso de alguém a algum serviço ou estabelecimento ou, ainda, pela incitação à discriminação por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
Na Câmara dos Deputados, está pronta para votação em Plenário proposta que pretende instituir uma nova lei contra o racismo e outros casos de preconceito, mais severa (PL6418/05 e apensados). Pelo relatório do deputado Henrique Afonso (PV-AC) aprovado em dezembro de 2013 pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias, ficaria revogado também artigo do Código Penal sobre injúria racial, cuja prática, diferentemente do crime de racismo, não é inafiançável e imprescritível.
A ideia é que tanto a injúria quanto a apologia ao racismo passem a ser enquadradas como discriminação resultante de preconceito de raça, cor, religião, sexo, aparência, condição social, descendência, origem nacional ou étnica, idade ou condição de pessoa com deficiência. A pena é de reclusão de um a três anos, passível de acréscimo de um terço.
Para Henrique Afonso, a lei atual não atingiu a eficácia esperada. Opinião compartilhada pelo presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Wadih Damous. "A lei atual foi uma grande conquista na época em que foi editada. Pela primeira vez, aprovou-se uma lei que reprovava a prática de atos racistas. Infelizmente, as manifestações de racismo – inclusive manifestações acirradas – recrudesceram ao longo desses anos ao invés de diminuírem. De forma que a constatação é de que a lei não atende mais aos reclamos de uma reprimenda mais forte a manifestações racistas", ressalta.
Postura firme
O coordenador da Frente Parlamentar Mista pela Igualdade Racial e em Defesa dos Quilombolas, deputado Luiz Alberto (PT-BA), não vê, contudo, necessidade de mudança da lei, mas, sim, de postura nas instituições brasileiras. "Esse conjunto de eventos que vem ocorrendo no Brasil demonstra que a legislação só precisa ser aplicada conforme foi aprovada. Por exemplo: para um preso em flagrante delito por crime de racismo, não cabe fiança. É imprescritível. É inafiançável. Mas o juiz trata de outra maneira, concede fiança, abre outro tipo de ação penal. Portanto, destoa do objetivo da legislação atual."
Luiz Alberto argumenta que o sistema racial brasileiro é de tal forma complexo que o próprio Estado, muitas vezes, estimula práticas racistas, ao invés de coibi-las.

Íntegra da proposta:

  • PL-6418/2005  (Reportagem – Ana Raquel Macedo   Edição – Marcos Rossi)
  • FONTE - http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITO-E-JUSTICA/463024-CASOS-RECENTES-DE-RACISMO-LEVAM-A-DEFESA-DE-LEI-MAIS-SEVERA-PARA-PUNIR-PRECONCEITO.html?utm_campaign=boletim&utm_source=agencia&utm_medium=email
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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

RACISMO/LEIS - Lei Caó faz 25 anos no Brasil...contra o preconceito racial

Lei que define crimes de racismo completa 25 anos

(imagem - foto colorida, com o rosto de uma criança, que tem na sua metade esquerda olho azul e pele branca, na outra metade, à direita, é negra, porém não podemos separar estas duas faces da mesma pessoa, como representação da idéia e do preconceito que alicerça ideologicamente os racismos, discriminando a partir da pele e sua cor - fotografia da Internet)
Foi criada há exatos 25 anos a Lei 7.716, que define os crimes resultantes de preconceito racial. A legislação determina a pena de reclusão a quem tenha cometidos atos de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Com a sanção, a lei regulamentou o trecho da Constituição Federal que torna inafiançável e imprescritível o crime de racismo, após dizer que todos são iguais sem discriminação de qualquer natureza.
A lei ficou conhecida como Caó em homenagem ao seu autor, o deputado Carlos Alberto de Oliveira. A partir de 5 de janeiro de 1989, quem impedir o acesso de pessoas devidamente habilitadas para cargos no serviço público ou recusar a contratar trabalhadores em empresas privadas por discriminação deve ficar preso de dois a cinco anos. 
É determinada também a pena de quem, de modo discriminatório, recusa o acesso a estabelecimentos comerciais (um a três anos), impede que crianças se matriculem em escolas (três a cinco anos), e que cidadãos negros entrem em restaurantes, bares ou edifícios públicos ou utilizem transporte público (um a três anos). Os funcionários públicos, tratado na lei, que cometerem racismo, podem perder o cargo. Trabalhadores de empresas privadas estão sujeitos a suspensão de até três meses. As pessoas que incitarem a discriminação e o preconceito também podem ser punidas, de acordo com a lei.
Apesar da mudança no papel, os negros ainda sofrem racismo e frequentemente se veem em situação de discriminação. Para o coordenador nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais e Quilombolas (Contaq), no campo legislativo pouca coisa mudou desde que a escravidão foi abolida, em 1888. “A realidade continua a duras penas. Desde o começo, muitos foram convidados para entrar no Brasil, o negro foi obrigado a trabalhar como escravo”, disse, citando leis como a da Vadiagem, a proibição da capoeira e o impedimento à posse de terras.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios, divulgada em setembro de do ano passado, 104,2 milhões de brasileiros são pretos e pardos, o que corresponde a mais da metade da população do país (52,9%). A diferença não é apenas numérica: a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior do que a de um branco, de acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
De 1989 para cá, outras legislações importantes na luta contra o preconceito racial foram criadas, como o Estatuto da Igualdade Racial (2010) –, e a Lei de Cotas (2012), que determina que o número de negros e indígenas de instituições de ensino seja proporcional ao do estado onde a universidade esta instalada. “Essas são ações muito importantes de reparação. Tem alguns fatores que a gente ainda precisa quebrar para que o negro tenha direitos e oportunidades reais”, acredita Biko.
Para denunciar o crime de racismo ou injúria racial, o cidadão ainda não tem à disposição um telefone em todo o Brasil. Mas unidades da Federação têm criado os seus próprios, como o Distrito Federal (156, opção 7) e Rio de Janeiro (21-3399-1300). Segundo Biko, é importante saber quem é de onde são as pessoas que cometem tal crime. “Sem dúvida, quando mais espaço de denúncia a gente tiver, mais reforça a luta conta a esse processo de segregação racial que a gente ainda vive nesse país”, avalia.
fonte - http://www.jb.com.br/pais/noticias/2014/01/05/lei-que-define-crimes-de-racismo-completa-25-anos/
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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

RACISMO/NEGROS - Para além das cotas os universitários negros enfrentam racismo

Mesmo com avanço pelas cotas, negros enfrentam racismo na universidade

Apesar da gradual entrada do negro no mercado de trabalho e na educação, o caminho para a superação do racismo ainda é longo

Política de cotas garantiu mais oportunidade para os negros no ensino superior Foto: UFRGS / Divulgação
(imagem - foto colorida da reportagem, com uma jovem negra apontando para um mural, com outros estudandes não negros à sua volta, em espaço universitário, fotografia da UFRGS)

A luta pela valorização do povo afro-brasileiro, relembrada nesta quarta-feira, no Dia da Consciência Negra, ainda encontra obstáculos dentro da universidade. Mesmo que as cotas tenham representado um significativo avanço na inserção do negro no ensino superior, especialistas ainda percebem um forte racismo dentro das instituições.
A questão é muito maior que a própria universidade. O preconceito racial está incrustado na sociedade brasileira, por mais velado que esteja. Apesar da gradual entrada do negro no mercado de trabalho e na educação, o caminho para a superação do racismo ainda é longo, acredita a professora e pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Maria José Cordeiro, a Maju.
"O negro não é mais só consumidor, mas gerador. Agora ele está do outro lado. As cotas colocaram negros qualificados no mercado de trabalho", afirma Maju. Em agosto, celebrando um ano da política de cotas nas universidades e institutos federais, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, afirmou que o Programa Universidade para Todos (Prouni) mudou a história dos negros no ensino superior. "Em 1997, somente 2,2% de negros frequentavam o ensino superior. Atualmente, são mais de 10%. Com o ProUni, de 1,2 milhão de contratos, mais de 630 mil são bolsistas negros", disse.
O último levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), de 2012, aponta que 35% dos matriculados em cursos de graduação no País são pretos ou pardos, enquanto 62% são brancos - mesmo índice de 2011. O Norte e o Nordeste são as regiões com maior percentual de universitários negros: 63% entre os nortistas e 57% entre os nordestinos. Na região Sul, apenas 10% é preto ou pardo, contra 89% de brancos. Já no Sudeste, 27% dos que frequentam o ensino superior são negros, e no Centro-Oeste, 40%.
Jocélio Teles, professor do departamento de antropologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ressalta o crescimento da participação de negros em cursos que tradicionalmente formam brancos, como medicina, arquitetura ou administração. Nas graduações em que já havia uma significativa participação de afro-brasileiros o crescimento foi menor.
A entrada do negro em ambientes que foram historicamente de brancos traz também o choque e o preconceito como consequências. "O racismo institucional é muito mais difícil de ser combatido, é inerente ao próprio dia a dia das instituições. Tem muita gente trabalhando junto e isso acaba existindo", diz Maju.
A pesquisadora do Núcleo de Estudos Negros da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Joana Passos diz que o racismo segue desafiando negros e indígenas. "O racismo não desapareceu da sociedade brasileira, sendo assim, também não desapareceu da universidade", afirma. Para ela, a estratégia para se superar esse problema é falar sobre o tema e fazer com que as pessoas percebam que ele, junto a questões econômicas e de gênero, estrutura as desigualdades do Brasil. Joana aponta a devida punição, a instituição de programas anti-racismo e a implementação da Lei 10639/03, que obriga o ensino da história e da cultura afro-brasileira na educação básica e ensino superior, como medidas necessárias para um avanço na área.
Pesquisa
Muitos cotistas procuram se integrar a grupos e núcleos de pesquisa para se apropriarem melhor das questões raciais na sociedade brasileira. Mas é preciso que as próprias universidades propiciem isso, afirma a professora. Teles ressalta que é mais comum estudantes negros organizarem eventos e ações pontuais para a conscientização sobre o assunto. De toda forma, não há cobrança de que cotistas se voltem às suas comunidades ou questões étnico-raciais com suas pesquisas. São muitos alunos e bolsas de pesquisa e, naturalmente, não é todo orientador que trabalha com racismo.
"Os estudantes negros e indígenas são estudantes como todos os demais. Eles precisam se sentir livres para a produção acadêmica", diz Joana.
Década Internacional de Afrodescendentes
No último dia 11, o Centro de Informações das Nações Unidas no Brasil (UNIC Rio) antecipou o lançamento de uma campanha para a aprovação da Década Internacional de Afrodescendentes.
A aprovação por parte da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) garantiria o estabelecimento de uma década que promova o fim do racismo, da discriminação e da xenofobia.
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domingo, 17 de novembro de 2013

RAÇA/POLÍTICAS DE SAÚDE - Estudo antropológico discute identidade racial e racialização de negros na saúde

Estudo analisa vigência de diferença racial na Saúde

Em entrevista, pesquisadora discute construção de identidade racial

A partir da Antropologia Política, Elena Calvo Gonzalez, antropóloga e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), pesquisou de que modo a identidade racial entre pessoas negras se constrói no âmbito de Políticas Públicas de Saúde.     Em um de seus questionamentos ela propõe: “A noção de diferença do corpo negro está sendo usada por quem? Com que propósito?”. Em entrevista ao “SOMOS”, a pesquisadora conversa sobre o recorte do trabalho que vem sendo conduzido, desde 2008, com a análise de tecnologias de diagnóstico na medicina e esclarece por que é importante pensar “raça” com um construto da nossa sociedade.
 Edvan Lessa – De que maneira analisou a construção de identidades dentro do campo da saúde?
Elena Calvo-Gonzalez – O objetivo era realizar um estudo etnográfico que olhasse para o impacto das políticas públicas na constituição de identidades e noções raciais. A pesquisa começou ao tentar entender a associação entre a doença falciforme e a população negra; quais as implicações dessa contínua associação percebida em materiais do Ministério da Saúde, da Secretaria de Saúde Municipal e em discursos cotidianos.  Entrevistamos famílias que tiveram filhos submetidos ao teste do pezinho - que identifica a doença em crianças recém-nascidas, médicos, funcionários do campo da saúde, pessoas do Movimento Negro; percebemos que há vários discursos sobre classificação racial, inclusive pairando concomitantemente. Isto é, o de uma pureza negra e uma pureza branca e um discurso da miscigenação – como, por exemplo, de que todo brasileiro é miscigenado. Você teria um negro que em aparência seria negro, mas que também teria algum grau de miscigenação.
Edvan Lessa – Um discurso predomina em relação a outro?
Elena Calvo-Gonzalez – A nossa hipótese de trabalho é que esse tipo de noção sobre pureza racial branca e pureza racial negra que data do século 19 nunca foi, digamos, deixada de lado, apesar do discurso de miscigenação ser mais forte.  Na verdade não há a substituição de um sistema de classificação por outro. E sim, discursos que estão mais frequentes.  As pessoas vão incorporando essas informações dentro de estoques de conhecimento sobre o que seria a raça, tanto na família quanto no país. Percebe-se uma acumulação de saberes. Além desses discursos, há o de que todo miscigenado tem algum descendente negro.
Edvan Lessa – Além da doença falciforme, também se atribui marcadores raciais à hipertensão e ao procedimento para coleta de sangue, segundo seu trabalho...
Elena Calvo-Gonzalez – Apesar de médicos falarem que existiam especificidades raciais no caso da hipertensão, clinicamente não se pode levar isso para o paciente. Há uma questão epidemiológica e há vários fatores que podem levar a essa situação. Os médicos falavam disso até em termos genéticos. Mas todas essas questões, apesar de estarem no discurso das consultas, quando se tratavam dos casos específicos, não eram colocadas. Eram mais ideias que o médico tinha e que não eram aplicadas no protocolo.
Edvan Lessa – E em relação ao hemograma?
Elena Calvo-Gonzalez – Sobre a terceira tecnologia que eu analisei, já havia uma discussão sobre valores de referência específicos a população negra na contagem de leucócitos. Mas um documento no qual há certos valores de referência em termos raciais está contribuindo com uma noção de que existem raças dentro de diferentes corpos. Eu fui analisar a contagem de leucócitos e me concentrei politicamente em duas questões. A primeira era a necessidade colocada por alguns representantes de grupo de trabalho Saúde da População Negra da Secretaria Municipal de Saúde, para adequar todas essas ferramentas às características da população local; há uma luta para se ter um perfil de saúde para essa população, era colocado que os valores de referência eram da população branca, portanto menores em relação à população negra. Em média uma contagem de leucócitos menor. Isso é uma doença e também pode ser uma condição natural que é usada dentro de processos políticos na marginalização de grupos. Isso se dá em conceitos laborais e acesso a certos setores. Ter uma leucopenia era tido como uma doença incapacitante, mas o acesso a certas substâncias químicas da indústria causa esse tipo de problema. Ao mesmo tempo em que se barrava um indivíduo por uma doença preexistente, uma característica do corpo negro, este era um modo das indústrias negarem a doença provocada por tóxicos industriais.
Edvan Lessa – Historicamente, a medicina lida com esse conceito de raça.
Elena Calvo-Gonzalez – Você pode utilizar esses valores de referência para pensar em processos políticos em relação à atenção à saúde mais adequada à população negra. Só que é preciso cuidado, por que essa noção da diferença do corpo negro em termos raciais médicos pode ser usada por diversos setores. De que maneira politicamente a noção da diferença do corpo negro está sendo usada, e por quem? Para que? Qual o objetivo e como as pessoas estão incorporando os resultados? Existe, sim, uma diferença de corpo negro e o corpo branco, mas a gente precisa pensar nesse processo de racialização em diversos momentos. É preciso dar atenção ao contexto médico, onde se tem um há uma vigência de diferença racial e um processo de racialização forte, pois o que a medicina diz em relação aos corpos é que é tomado como uma fonte de verdade.
Edvan Lessa – A racialização só diz respeito à população negra?
Elena Calvo-Gonzalez – Racialização não é um processo que envolva somente o corpo negro. Envolve todos os corpos que são marcados racialmente. No cotidiano da Bahia, todos. Você pode ter seu corpo marcado racialmente enquanto pertencente a uma categoria racial. Brancos ou negros, branco mestiço, aí tem todos os termos intermediários.
Quer saber mais sobre o que é o processo de racialização? Confira o áudio da entrevista com a pesquisadora Elena Calvo Gonzalez.
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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

NEGROS/INCLUSÃO NO TRABALHO - Relatório do DIEESE revela que mesmo trabalhando mais sempre ganham menos

Só escolaridade não garante presença de negros no mercado de trabalho, aponta Dieese

Negros representam 48,2% dos trabalhadores nas regiões metropolitanas, mas a média de seu salário chega a ser 36,1% menor do que a de não negros
Negros no Mercado
(imagem - foto colorida de um homem, um operário negro, da construção civil, com parte de seu corpo próximo a uma parede, trazendo uma ferramenta na mão, com a roupa suja de tinta para a pintura, confirmando a maçiça presença negra nesse mercado de trabalho, onde a desigualdade salarial é menor)
São Paulo – O boletim “Os negros no trabalho”, divulgado hoje (13) pelo Dieese, revelou que apesar de a população negra ter maior participação no mercado de trabalho ainda ganha menos do que os não negros e ocupa os postos de serviços menos valorizados. Mesmo quando o nível de escolarização se eleva e se equipara ao da população não negra, os cargos ocupados pelos negros são os de menor prestígio hierárquico e os salários são inferiores.
De fato, o acesso dos negros à universidade e à qualificação é menor. No entanto, quando aumentam o grau de escolaridade, individualmente têm uma melhora de renda. Mas não é suficiente para reduzir desigualdade, porque apesar de melhor remuneração, ela continua menor se comparada com a dos não negros”, observa a socióloga do Dieese Adriana Marcolino.  O estudo resulta de pesquisa feita pelo Dieese, em parceria com a Fundação Seade e o Ministério do Trabalho e Emprego.
Apesar de os índices relativos ao biênio 2011-2012 revelarem progresso em relação à maior ocupação dos negros e menor desemprego – nas regiões metropolitanas pesquisadas, 48,2% eram negros –, essa população segue tendo seu esforço produtivo menos reconhecido. Em média, suas remunerações por hora ficavam limitadas a 63,9% do ganho-hora dos não negros.
A pesquisa englobou as regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Salvador e São Paulo. Dos negros ocupados no mercado, 27,3% não haviam concluído o ensino fundamental (que vai do 1º ao 9° ano) e apenas 11,8% concluíram o ensino superior. Entre a população não negra, 17,8% dos ocupados não terminaram o ensino fundamental e 23,4% formaram-se em uma faculdade. Este cenário se reflete nos ganhos salariais, apesar de não ser determinante para as desigualdades constatadas.
Os negros, em todas as estruturas produtivas, estão em ocupação de menos prestígio, e mesmo quando têm maior escolaridade, estão em níveis mais precarizados. Os dados são uma comprovação de que existe um papel grande da discriminação racial no mercado de trabalho. A despeito do aumento da escolaridade, o negro vai se manter na ocupação que exige menos escolaridade. Porque é aquele emprego que é oferecido a ele, que é destinado a ele”, afirma Adriana.
Foi comprovado também que quanto maior o nível do patamar de escolaridade, a desigualdade entre a remuneração de negros e não negros aumenta. Por exemplo, na indústria de transformação, a desigualdade de rendimento por hora dos negros em relação aos não negros era de 18,4% no ensino fundamental incompleto e de 40,1% para aqueles com ensino superior completo. Ou seja, quanto maior o nível de escolaridade, maior a desigualdade entre negros e não negros.
No setor da construção, em que a qualificação exigida se apoia mais na experiência do que na escolaridade, a desigualdade entre os rendimentos por cor é menor: variou de 15,6% dentre os ocupados com ensino fundamental incompleto e 24,4% para aqueles com superior completo.

Políticas afirmativas

O desemprego diminuiu entre os negros e não negros, e apesar de haver maior inserção dos primeiros no mercado, os índices mostram diferenças no acesso. “O mercado teve melhora como todo, e isso é fruto do desempenho econômico, do crescimento, da melhoria de condições gerais. A população negra, em alguma medida se beneficiou, aumentou sua ocupação, mas a desigualdade de inserção se mantém”, comenta a socióloga do Dieese.
Adriana ressalta que apesar da importância de políticas afirmativas na educação, como a adoção de cotas por universidades públicas, para maior inserção social da população negra, elas não são suficientes para mudar significativamente o cenário do mercado de trabalho.
A política de cotas teve impactos positivos, pois cria mais oportunidades e eleva a escolaridade da população negra, mas não é único elemento para acabar com desigualdade no mercado de trabalho”, diz a socióloga, acrescentando que é preciso avançar em outras políticas específicas para o mercado de trabalho. “O movimento sindical tem iniciado esse debate, tem aparecido bastante nas negociações coletivas, para que este tema seja debatido no espaço da empresa. Preconceito racial é subjetivo às vezes, embora tenha um reflexo objetivo no mercado. É importante incluir todos no debate, para ir aos poucos saindo do esquecimento, dessa capa de que há igualdade no mercado”, observa Adriana.
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segunda-feira, 11 de março de 2013

HISTÓRIA/ESCRAVIDÃO - A Abolição não incluiu os negros no trabalho (USP)

Após abolição, negro foi excluído do mercado de trabalho


*(imagem - foto em preto e branco com duas pessoas negras, uma sentada e outra em pé segurando um guarda chuva - que faz parte da matéria: Lei Municipal de 1886 proibia os escravos de exercerem algumas profissões)

Entre 1912 e 1920, a população negra da cidade de São Paulo perdeu postos de trabalho, foi prejudicada por leis municipais que de forma explicita ou não a proibiam de exercer certas profissões, além de ter sido retirada de terras onde desenvolviam a agricultura de subsistência. “Esses fatores podem ser considerados indícios de que houve uma construção ideológica gestada pelas elites que visava a exclusão do negro da sociedade brasileira”, aponta o pesquisador Ramatis Jacino, professor do ensino médio, em sua tese de doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.


Jacino analisou cerca de 43 mil boletins de ocorrência emitidos na cidade na segunda década após a abolição da escravatura, entre 1912 e 1920. “Com o fim da escravidão, os únicos documentos oficiais que mencionavam a cor da pele e a profissão exercida eram os boletins de ocorrência da polícia”, explica. O pesquisador também analisou anúncios de jornais da época e alguns processos criminais.
No mestrado, que abordou o mesmo tema, a análise esteve focada na população negra que vivenciou o período pré e pós abolição. Jacino pesquisou os anos de 1872 e 1890 (datas em que houve recenseamento na cidade) e pode verificar quais profissões os negros exerciam na época. A maioria eram ligadas à baixa qualificação e mal remuneradas: trabalhadores domésticos, criados, ama-secas, jornaleiros, carregadores, operários da construção civil, artíficies, parteiras, etc, mas havia também alguns jornalistas, professores e intelectuais.
Já no doutorado, sob a orientação da professora Vera Lúcio Amaral Ferlini, da FFLCH, o foco foi a primeira geração de negros que nasceu após a abolição. O pesquisador comparou os dois períodos e ficou surpreso ao perceber que, de 1912 a 1920, com a industrialização da cidade, os negros haviam perdido as ocupações que antes exercia. Profissões de ama-seca, domésticas e criados começaram a ser exercidas por imigrantes. Isso levou a um processo de marginalização da população negra.
Exclusão legalizada
Para o pesquisador, esse processo de exclusão ocorreu devido a três fatores. O primeiro foi a promulgação de uma série de leis que proibia, de forma implícita ou explícita, que escravos exercessem certas profissões. “Em 1886, por exemplo, uma lei municipal determinava que as profissões de cocheiros, aguadeiros [que carregavam baldes d’água], caixeiros viajantes e guarda-livros[contadores] não poderiam ser exercidas por escravos”, explica.
O segundo motivo é que muitos escravos libertos, antes da abolição, se dedicavam à pecuária e à agricultura familiar de subsistência em lotes de terra pela cidade. Porém, o poder público determinou que esses lotes deveriam ser concedidos aos chamados “homens bons”, ou seja: brancos, cristãos e pais de família. Os negros – todos excluídos desse critério – foram obrigados a abandonar as terras e a se mudar para outras regiões: as mais remotas da cidade.
O terceiro motivo é que uma série de leis gerais acabaram por marginalizar os negros. A Lei de Terras, de 1850, determinava que a posse da terra seria feita mediante a compra. No Império, as terras eram divididas por meio de sesmarias e muitos posseiros eram brancos pobres, índios, caboclos e negros. Com a Lei de Terras, a maioria teve dificuldade em comprar os lotes.
Segundo o pesquisador, muitos empregadores publicavam em jornais anúncios de oferta de emprego. Na maioria, explicitavam a necessidade de o candidato ser branco e imigrante (italiano, alemão), etc. “Em anúncios de grandes empresas da cidade, não encontrei um texto explícito sobre a cor do candidato. Entretanto, na composição do quadro de funcionários, a maioria era estrangeiro e havia pouquíssimos negros”, comenta.
Mito fundador
Durante o Império (1822-1889), diz Jacino, o mito fundador do Brasil era representado pela união de brancos, negros e índios na luta contra os invasores holandeses, nas figuras de Antonio Felipe e Clara Camarão (índios), Henrique Dias (negro) e Matias de Albuquerque (português).
Já na República, proclamada em 1889, esse mito foi alterado pelas elites e a formação do Brasil passou a ser associada à índia Bartira e ao português João Ramalho. “É mais um indício de que a intenção das elites era excluir a figura dos negros da história da fundação do país. O índio era considerado como o “bom selvagem”; já o negro era o “mau selvagem” “, diz.
Na transição do trabalho escravo para o assalariado, intelectuais da Faculdade de Direito de São Paulo, da Faculdade de Direito do Recife, da Escola de Medicina na Bahia e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) foram construindo um discurso ideológico que foi apropriado pelas oligarquias de que a população negra não era adequada para o trabalho assalariado; que a miscigenação levava à doenças; e que os negros tinham problemas de caráter e que sua idade mental era inferior a dos brancos. “A meu ver, esse discurso tinha a intenção de branquear a sociedade. Para as elites, a sociedade moderna e capitalista que eles almejavam precisava ser branca”, finaliza.
Imagem: Wikimedia Commons
fonte - AGÊNCIA USP - http://www.usp.br/agen/?p=130331
Mais informações - e-mal rama@usp.br com Ramatis Jacinto
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sexta-feira, 1 de março de 2013

RACISMO/PRECONCEITOS- Blogueiro defende as cotas e a luta contra discriminação

O racismo não está nos olhos de quem vê

Blogueiro negro defende cotas raciais nas universidades até que todos deixem de tratar pretos como representantes de minoria

Com a decisão da legalidade, pelo STF, das cotas raciais , as primeiras inscrições de alunos pela lei de cotas nas universidades públicas federais e a possibilidade real de cotas nas universidades públicas de São Paulo amplia-se o debate sobre questões de políticas afirmativas em relação à população afrodescendente. Boa parte deste debate tem sido feito de forma rasa e com boa dose de preconceito e/ou constrangimento em reconhecer as cotas como um direito que trata desiguais de forma desigual.

Convidei para participar dessa coluna através do texto abaixo, e assim colaborar no debate, o estudante André Rossi Pola Barbosa. André, blogueiro, é negro, filho de mãe solteira, militante do movimento negro e do movimento feminista. Já cursou farmácia em uma universidade particular e depois engenharia mecânica naval na Fundação Universidade do Rio Grande (FURG). Não era o caminho que queria, e hoje se dedica a estudar para conquistar uma vaga em medicina em uma universidade pública, se possível com a nota do Enem. André, por ter estudado o ensino médio em escola particular, não tem direito a concorrer pelas cotas da lei nacional.

Sobre igualdade, racismo e ações afirmativas - pois o racismo não está nos olhos de quem vê
Vivemos na era do politicamente correto. Isso é uma coisa boa, pois desse modo muitas pessoas percebem o quanto as expressões do dia-a-dia estão carregadas de preconceitos e menosprezo com as minorias. Assim, muitos indivíduos que se achavam deslocados do mundo repararam que não estão sozinhos e, disso, inúmeros movimentos se organizaram melhor (ou ganharam mais força) como o das feministas, o dos negros e o dos gays. A fim de melhorar e reivindicar certos direitos que, para eles, não eram garantidos ou não eram respeitados, esses grupos se organizaram e suas reivindicações encontraram grande resistência por parte de reacionários (pessoas que não aceitam mudanças na sociedade e preferem a ordem atual).
Uma dessas reivindicações foi a política de ações afirmativas, para que haja uma maior participação do negro na sociedade. Para isso, recentemente, o governo de São Paulo propôs às universidades estaduais que reservassem 50% das vagas para pretos (nomenclatura oficial para negros e pardos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE) e alunos de escola pública. Por isso, a classe média hoje vocifera palavras de igualdade, dizendo que as cotas vão apenas fomentar o racismo (que ela pensa não existir mais). No entanto, isso é uma falácia e tais ações se fazem necessárias para que justamente se diminua o racismo no Brasil.
A maioria das pessoas contrárias às cotas se indigna por elas tirarem a igualdade entre os cidadãos, porque todos são "iguais perante a lei". Todavia, não sabem da existência de dois tipos de igualdade: a formal e a material. O primeiro tipo de igualdade é a defendida pelos reacionários, de que todos são iguais, mas por meio desse tipo de igualdade os juristas verificaram que as diferenças sociais não deixavam de existir. Por causa disso, foi definida então a segunda igualdade, a material. Nesta, para tornar a sociedade mais igualitária, os mais desiguais serão tratados desigualmente ao pé de suas desigualdades - para que estes possam se tornar mais iguais ante os demais. 
Por isso foi importante a criminalização da homofobia, foi importante a instituição da lei "Maria da Penha" para combater a violência doméstica e assim também são importantes as cotas raciais e sociais nas universidades públicas.
A sociedade brasileira é a segunda maior sociedade de pretos do mundo, perdendo apenas para a Nigéria. Mas onde eles estão? Pois não constituem a maioria dos engenheiros, dos padres, dos médicos, dos professores, dos fisioterapeutas ou dos advogados. Porém, constituem a maioria em empregos como: auxiliares de obras, garçons, garis, carteiros, jardineiros, etc. Essas profissões não perdem a sua importância para a sociedade como aquelas outras, mas, não obstante, a possibilidade de ascensão social a partir delas é quase nula. O que explica o porquê de negros e pardos ficarem com essas profissões é a nossa história.
Quando se trata de escravidão, no imaginário das pessoas vem à tona a fazenda modelo de José de Alencar. Aquela fazenda cujo retrato ocorre nas novelas de época da Globo, onde o negro fica trabalhando normalmente sem reclamar e o branco vive o papel do protagonista. Contudo, a vida real dessas pessoas não foi assim. Além do trabalho árduo, o negro não passava de um objeto, não era considerado gente, nem portador de alma segundo a igreja na época. Sofria os mais variados tipos de castigos e de insultos, era considerado desleixado e vagabundo. Seu trabalho não era considerado de qualidade, daí vieram expressões como "serviço de preto" e "pretisse". Em 1888, em 13 de Maio, foi assinada a "Lei Áurea", que colocaria um fim à escravidão, com o crescimento da indústria no sudeste e o aparecimento do trabalho assalariado. A partir desses eventos, o negro passaria a ter um modo de vida, então, digno.
No entanto, isso não ocorreu. Por quê? Na época, havia inúmeras teorias racistas e a principal e mais arraigada na mentalidade da população era: negro é um estágio anterior dos brancos, tanto que havia "pesquisadores" empenhados em provar que o negro era menos evoluído. Ninguém conseguiu provar ou demonstrar tais teorias, porém elas contribuíram para o preconceito já existente. Em suma: negro não era gente. Além disso, a "Lei Áurea" apenas retirou o negro da condição de "objeto" e o pôs na sociedade totalmente "cru", sem estudo e nem preparo, portanto não havia condições de eles competirem com os imigrantes europeus e depois japoneses que desembarcavam aos milhares nos portos brasileiros.
 Os novos imigrantes eram atraídos pela possibilidade de emprego e de enriquecimento. Já para o governo da época, essa foi uma tentativa de "embranquecer" a população, pois uma das teorias então existentes era de que a miscigenação de "raças" (hoje temos clareza que não há outra raça além da humana) era prejudicial para um país e para os seres humanos. Assim o negro foi liberto, mas não garantiram meios para que ele pudesse sobreviver, e tudo isso ocorreu por causa da mentalidade até então existente.
O principal ainda era a ideia de que "preto é vagabundo", "preto não trabalha direito", "preto que não caga na entrada caga na saída" e outras inúmeras expressões e piadas que refletiam a mentalidade desse momento em que o negro entrava na sociedade. Por causa desse pensamento, sempre sobraram aos negros os piores serviços, pois o empregador não queria correr o risco de ter um funcionário "preguiçoso". Já o branco era muito mais trabalhador, tanto que, segundo o professor da Unesp, Dagoberto José Fonseca, surgiu a expressão "amanhã é dia de branco".
Largado às margens da sociedade, o ex-escravo e agora favelado fica a esmo nas grandes cidades, com dificuldade de encontrar emprego por não ter capacidade de competir com os imigrantes. Por estar desempregado e sempre criando o samba, dando risada, seu quadro foi agravado. Foram ratificados os estigmas de "vagabundo", "preguiçoso", "vadio" e, para piorar, eram alvos de piadas que mostravam a superioridade do branco, como: "Como preto sobe na vida? Quando explode o barraco" ou "Por que preto americano é melhor? Porque está nos Estados Unidos"
. Essas piadas foram transferidas atualmente para o pobre, para o gay. Por isso, atualmente, o politicamente correto se faz necessário para demonstrar que expressões tidas como "inofensivas" são racistas e pregam o preconceito devido a uma carga histórica já existente nelas. Portanto o preconceito, embora disfarçado, ainda persiste na sociedade brasileira por meio de ditados populares e não como dizem que ele está "nos olhos de quem vê", pois em cada expressão há uma origem de extrema discriminação. Atualmente isso ainda é propagado por meio de piadas, em especial.
O riso é, de certo modo, acusador das diferenças sociais. Há pessoas que dão risada das piadas anteriormente citadas, esse riso é o de quem concorda que essa é a atual situação do negro. O efeito humorístico nesse caso é criado pela hipérbole da situação deles nas cidades e, se essa situação não for mais evidente, não haverá mais o riso. Quando não houver mais humor, é porque a mensagem passada é um absurdo para a maioria da população e, então agora, o preto faz parte da maioria da sociedade. Isso evidencia como as cotas raciais são necessárias.
Mas e os brancos pobres? Embora a desigualdade social seja grande no País, o branco pobre tem maior facilidade em arrumar um emprego do que o preto pobre, por causa dos pensamentos anteriormente citados que dominam o subconsciente de pessoas ainda racistas. Tanto que, no início da década de 1990, era comum nos anúncios de emprego a exigência de "boa aparência". Por meio de uma investigação policial, verificou-se que a "boa aparência" era ser branco. Isso evidencia como o racismo ainda existe fortemente no Brasil. Quando houver mais negros e pardos ocupando cargos importantes, a ideia de que ele é "vagabundo", "preguiçoso" e "folgado" deixará de existir.
As cotas não constituem uma forma para acabar com a suposta "igualdade" existente, elas criarão possibilidades para que, no futuro, a sociedade seja mais igualitária. Ela o será quando o negro for colocado em maior evidência, quando for retirado dos empregos considerados menos importantes, quando for afastado dele o estigma de bandido e favelado, quando todos deixarem de rir de piadas racistas e outras insinuações que denigrem a sua imagem. Mas tudo isso leva tempo. Quanto tempo? O tempo até que todos deixarem de falar deles como minorias e passarmos a nos preocupar com a situação do ser humano e não mais da situação do negro.
FONTE- http://ultimosegundo.ig.com.br/colunistas/mateusprado/2013-03-01/o-racismo-nao-esta-nos-olhos-de-quem-ve.html
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