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domingo, 24 de novembro de 2013

SAÚDE MENTAL/MANICÔMIOS - Descoberta de celas de tortura revela o Hospital de Neuropsiquiatria Infantil em BH

Hospital psiquiátrico infantil abrigou salas de tortura em BH

Hospital psiquiátrico infantil abrigou salas de tortura em BH
(imagem - foto de uma cela forte, um cubículo, agora em escombros, que servia para o castigo e a reclusão de pessoas, jovens com sofrimento psíquico, durante longo tempo, como parte da história de um manicômio, mais um, em Minas Gerais - fotografia colorida de Priscila Musa)

Mais que o glamour de um prédio de arquitetura neoclássica, o casarão construído na rua Manaus, 348, no bairro Santa Efigênia, esconde uma fase de clausura, terror e sofrimento de pequenos internos entre os anos 1947 e 1979 – período no qual a edificação abrigou um Hospital de Neuropsiquiatria Infantil.
Este é um espaço de sofrimento e essa história precisa ser contada”, exige, comovido, um ex-paciente do hospital, que pede anonimato. Já aposentado, o homem revela que foi internado na unidade de saúde aos 5 anos de idade.
“Eu só estou vivo porque consegui fugir pelo telhado. Eu ouvia os gritos das pessoas e muitas vezes passei pelo eletrochoque”.

Memória
Entre os escombros do casarão, que ficou fechado por quase duas décadas, há um corredor de 182 metros de extensão localizado no primeiro andar. Lá, são encontrados cômodos de aproximadamente 15 metros quadrados, com paredes cheias de rabiscos de pequeninas mãos, nomes e desenhos. Não há circulação de ar porque as janelas foram lacradas com tijolos. Um ambiente que causa desconforto físico e moral - tortura, segundo definição no dicionário da Academia Brasileira de Letras.

No final do corredor há outra pequena abertura. A partir dela, descobre-se um labirinto que chega em novas celas, algumas com grades nas janelas lacradas com cimento. Frascos de remédio, ferramentas, sapatos de criança e brinquedos estão espalhados pelo chão.
Eu não apanhava tanto porque ficava muito quieto, mas as crianças mais agitadas iam para o primeiro andar. Algumas não voltavam mais. Os médicos diziam que a família os tinham buscado, mas eu nunca soube se isso era verdade”, conta o ex-interno.

O presidente da Fundação Mineira de Psiquiatria, Maurício Leão, afirma que ambientes insalubres, como os descritos acima, podem prejudicar a saúde mental. “É por isso que hoje a vigilância sanitária é tão severa em suas fiscalizações”.

Descoberta
O desvendar desse espaço até então desconhecido só começou a ser feito há 30 dias, quando artistas e intelectuais ocuparam o casarão, batizado de Espaço Comum Luiz Estrela .Logo nos primeiros dias, criou-se um grupo composto por uma arqueóloga, um historiador e uma arquiteta. Imediatamente eles fecharam a entrada para os espaços apontados como sítio arqueológico urbano.

“Cada cômodo que encontramos é como um arquivo com documentos. É preciso avaliar com cuidado um a um, em um trabalho que exige minúcia e responsabilidade”, explica a arqueóloga Camila Jácome. Como legítimo guardião da memória, o grupo trabalha em um projeto de pesquisa que será apresentado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) nos próximos dias.

Eletrochoques eram comuns

A partir dos anos 1930 e até o fim da década de 1970, tratamentos como a lobotomia e o eletrochoque eram comumente utilizados em hospitais psiquiátricos. O presidente da Fundação Mineira de Psiquiatria, Maurício Leão, reitera no entanto que ambos são tratamentos que contribuíram para a evolução da medicina. “Em alguns casos, evidentemente, esses tratamentos foram usados com recursos e de maneira distorcida, mas têm em sua essência o dever de contribuir para a qualidade de vida do ser humano”, explica ele. Hoje a psicocirurgia é considerada como a evolução da lobotomia e o eletrochoque ainda é utilizado em muitos casos.


LEIA TAMBÉM NO MEU BLOG INFOATIVO.DEFNET SOBRE SAÚDE MENTAL -   

OS MORTOS-VIVOS DO HOSPICIO QUE ENSINAVAM AOS VIVOS SOBRE A VIDA NUA... BARBACENAS NUNCA MAIS! http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/10/os-mortos-vivos-do-hospicio-que.html

sábado, 17 de agosto de 2013

DIREITOS HUMANOS/TORTURA - Livro faz histórico da Operação Bandeirantes com o DOI-COI nos Anos de Chumbo

"PARA QUE NUNCA MAIS ACONTEÇA"  - Livro de Mariana Joffily 

Pau de arara
(imagem - foto em preto e branco, com um homem negro preso ao que se chama de Pau de Arara, um ferro suspenso, ferramenta de Tortura,onde se aprisiona a pessoa com as mãos amarradas sobre as pernas dobradas e presas ao ferro, deixando a pessoa vulnerável e exposta aos torturadores. Foi usado na Ditadura Militar e, lamentavelmente, ainda persiste com meio de tortura no Brasil - fotografia de difusão da matéria)

"Na relação do torturador com o torturado a única coisa que não pode acontecer é você falar 'não falo'. Se você falar 'não falo', dali a cinco minutos você pode ser obrigado a falar, porque eles sabem que você tem algo a dizer" (trecho do depoimento de Dilma Rousseff, sobre a tortura sofrida durante o período militar no Brasil)

  por Patrícia Beloni


A atual presidente e outros ex-prisioneiros e vítimas desse regime contribuíram com suas histórias para a produção do livro No Centro da Engrenagem – Os Interrogatórios na Operação Bandeirante e no DOI-CODI de São Paulo (1969-1975), de Mariana Joffily. A produção é fruto da tese de doutorado em História Social, na USP, constituída por uma coletânea do Prêmio de Pesquisa Memórias, com base no Dossiê 50-Z-9, composto por 5.419 sessões, com 1.324 pessoas inquiridas.

Não é de hoje a busca pelo acesso aos arquivos e aos documentos oficiais que possibilite melhor esclarecer o funcionamento dos aparatos repressivos durante a ditadura militar, em especial o envolvimento das forças armadas, explica o professor Sérgio Adorno, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que redigiu a apresentação da publicação. 

Tanto a sociedade civil quanto a sociedade política têm se mobilizado para evitar o esquecimento das graves violações de diretos humanos cometidas contra a dissidência política. O meio acadêmico não fica de fora. A necessidade de análises e estudos que explicassem como o golpe de Estado e seus desdobramentos foram possíveis ampliou a atuação do meio acadêmico, do qual este livro faz parte, complementa Adorno.

Dentro da engrenagem 

“Com o seu livro, Mariana Joffily nos ajuda a entender por que o passado ainda não passou no Brasil”, palavras do professor Luiz Felipe de Alencastro, da Cátedra da História do Brasil da Universidade Paris Sorbonne e autor do prefácio da publicação. A pesquisa de Mariana surgiu a partir de um duplo questionamento dos tempos militares: qual a funcionalidade desses interrogatórios na engrenagem da repressão? Em que medida tais interrogatórios esclarecem o funcionamento desses órgãos, seu papel, alcance e resultados pretendidos?

Com base nessas dúvidas, o livro tornou-se um trabalho historiográfico e científico, que toma por base os interrogatórios preliminares de militantes das diversas tendências de esquerda, acusados de subversão, realizados no âmbito da Operação Bandeirante e do DOICODI, em São Paulo, no período de 1969-1975. São dados, depoimentos e análises em conjunto com os diálogos dos principais estudiosos do campo, com referências bibliográficas dos últimos 30 anos, que tentam elucidar um período da história do País que ainda não teve um ponto final.

O livro tem quatro capítulos que questionam e analisam esses interrogatórios, acompanhando minúcias, detalhes, cada passo, cada gesto, com as técnicas e linguagens dos repressores. “Difícil não imaginar a partir da leitura da transcrição minudente desses interrogatórios o que se passava nas salas, os movimentos em torno das sessões, o claro-escuro da ambientação, o tom das vozes, as ameaças, os gritos dos torturados, os jogos de palavras capazes tanto de extorquir confissão quanto arrependimento dos inquiridos, o sadismo dos interrogadores”, diz Adorno, também coordenador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP.

O livro se inicia com a descrição de outros estudos das razões que motivaram a criação da Operação Bandeirante e, em seguida, do DOI-CODI e suas fronteiras entre o legal e o ilegal. O ponto alto são as análises das dimensões discursivas do interrogatório. É nesse meio que a autora busca descobrir uma rede de diferentes atores, operações, estruturas, processos e rotinas de funcionamento da repressão, revelando as sutilezas do aparato em obstinada vontade de saber e de poder, e, por fim, a funcionalidade da tortura e suas técnicas. “Estudos como este contribuem decisivamente para romper silêncios, combater essa sorte de aquiescência para com a tortura e, na melhor das hipóteses, buscar alternativas em lideranças políticas jovens capazes de reconstruir, sob o signo da memória e da verdade, os elos entre o passado e o presente”, completa o professor Sérgio Adorno.

O livro
Mariana Joffily 
No Centro da Engrenagem – Os Interrogatórios na Operação Bandirante e no DOI-CODI de São Paulo (1969-1975)
São 
Paulo, Edusp, 2013, 352 págs.

Fonte: Jornal da USP Online  http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=11&id_noticia=221442

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ONDE NASCEM E MORREM OS DIREITOS HUMANOS? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/onde-nascem-e-morrem-os-direitos.html

sábado, 15 de junho de 2013

HOMOSSEXUALIDADE/REPRESSÃO - A Ilha fascista de Musolini para o "isolamento'' de gays

Fascistas criaram 'ilha gay' para confinar homossexuais

(Imagem - foto colorida de uma ilha com o mar à direita e uma grande floresta donde se vê à distância este local de isolamento, é a ilha de San Domino, no Arquipélago de Tremini, no Mar Adriático, na Itália, fonte BBC)

Há 75 anos, durante o fascismo na Itália, um grupo de homens rotulados de "degenerados" foi expulso de casa e internado em uma ilha. Eles eram mantidos em cárcere privado, mas alguns deles dizem ter vivido uma experiência liberalizante nesta que teria sido a primeira comunidade abertamente gay do país.

Todos os anos, turistas são atraídos pela beleza dessa pequena faixa de ilhas vulcânicas do Mar Adriático. Mas apenas recentemente um grupo de visitantes chegou ao arquipélago de Tremiti, não apenas para aproveitar a paz e o sossego do lugar, mas para lembrar um fato importante.
O grupo era formado por ativistas de direitos dos gays, lésbicas e transgêneros. Eles vieram para realizar uma pequena cerimônia relembrando um triste episódio que aconteceu na ilha há 70 anos.
'Avanço da degeneração'
Por volta do final dos anos 1930, o arquipélago teve participação importante no esforço dos fascistas de Benito Mussolini de suprimir a homossexualidade. Os gays atrapalhavam o projeto do líder fascista do país, que queria disseminar uma Itália de imagem masculina.
"Fascismo é um regime viril. Portanto, os italianos são fortes e masculinos, e é impossível que a homossexualidade possa existir no regime fascista", diz o professor de história da Universidade de Bergamo, Lorenzo Benadusi.
Assim, a estratégia era a de encobrir a questão de todas as formas possíveis. Leis discriminatórias contra gays acabaram não sendo aprovadas na época, mas o clima criado não permitia manifestações de homossexualidade, que poderiam ser vigorosamente reprimidas. E um prefeito da cidade siciliana de Catania tirou grande proveito dessa atmosfera de repressão de Mussolini.
"Notamos que alguns clubes, praias e lugares nas montanhas recebem muitos desses homens doentes, e jovens de todas as classes sociais buscam a sua companhia", escreveu. Ele estava determinado a combater o "avanço da degeneração" na cidade "ou, pelo menos, conter a aberração sexual que ofende a moralidade e é um desastre para a saúde pública e para o melhoramento da raça". E ele continuou: "Esse demônio precisa ser atacado e queimado na sua essência."
Livro
Assim, em 1938, cerca de 45 homens acusados de serem homossexuais em Catania, na Sicília, foram presos e enviados a um exílio interno. Subitamente, o grupo se viu confinado a 600 km de distância, na ilha de San Domino, em Tremitis, no Mar Adriático
O episódio foi totalmente esquecido. Acredita-se que ninguém que tenha enfrentado a punição continue vivo atualmente, e existem apenas poucos relatos do que aconteceu na ilha. Mas no livro "A Ilha e a Cidade", os pesquisadores Gianfranco Goretti e Tommaso Giartosi falam de dezenas de homens, a maioria de Catania, e as duras condições que enfrentaram em San Domino.
Eles teriam chegado algemados e então abrigados numa casa ampla de dormitórios espartanos, sem eletricidade ou água encanada. "Ficávamos curiosos, porque eles eram chamados de 'as garotas'", conta Carmela Santoro, uma moradora da ilha que era apenas uma criança quando os exilados gays começaram a chegar.
"Nós íamos assisti-los a sair do barco... todos bem vestidos, no verão, com meias brancas... de chapéu. E nós vínhamos vê-los com surpresa... 'olha aquela uma, como ela se mexe!' Mas nós não tínhamos nenhum contato com eles".
Outro morador, Attilio Carducci, relembra quando um sinal sonoro tocava às 8 da noite todos os dias, anunciando que os homens não podiam mais ficar do lado de fora.
"Eles eram trancados dentro dos dormitórios e ficavam sob vigilância da polícia", relembra. "Meu pai sempre falava bem deles. Ele nunca teve nada de mal a dizer sobre eles - e ele era um representante local fascista."
Os prisioneiros sabiam que a exposição de sua homossexualidade teria causado vergonha e raiva de seus familiares em lares extremamente conservadores nas cidades e vilas italianas. Um pouco dessa atmosfera é capturada na carta de um filho para um pai pobre e agricultor. Ele estava estudando para ser padre quando foi preso.
Implorando às autoridades judiciais para deixá-lo ir pra casa, ele escreveu: "Imagine, Sua Excelência, o dor do meu amado pai. Que desonra para ele!" "Exílio por cinco anos... Isso me enlouquece só em pensar".
O prisioneiro, identificado apenas como Orazio L, requisitou a chance de deixar a ilha para "servir à Pátria" no Exército. "Me tornar soldado, e depois retornar ao seminário para viver em confinamento é o único jeito no qual eu posso reparar o escândalo e a desonra para a minha família", escreveu.
Nem tão ruim
Mas alguns relatos dados por ex-exilados gays indicam que a vida não era tão ruim em San Domino. Eles descrevem o dia a dia em um regime de prisão comparativamente tranquilo. Sem querer, os fascistas criaram um canto na Itália onde se era esperado ser abertamente gay.
Pela primeira vez na vida, os homens podiam ser eles mesmos, livres do estigma que normalmente os circundava na devota Itália católica dos anos 1930. O relato de um ex-prisioneiro da ilha explicou o que isso significava, numa rara entrevista publicada há alguns anos na revista gay Babilonia. Ele disse que de certa forma, os homens viviam melhor na ilha do que fora dela.
"Naquela época se você era um femmenella (gíria italiana para homem gay), você não poderia nem mesmo sair de casa ou se fazer perceber, a polícia prenderia você", disse em sua cidade natal, perto de Nápoles. "Na ilha, de um outro lado, celebrávamos nossos dias de santo ou a chegada de alguém novo. Fazíamos teatro e podíamos nos vestir de mulher que ninguém dizia nada."
E para completar, claro, ele disse que existiam romances e até mesmo brigas. Alguns prisioneiros partiram, disse Giuseppe, com o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, e o consequente fim do regime de confinamento de San Domino. Os prisioneiros foram então colocados numa espécie de confinamento doméstico nas cidades de onde eles vieram.
Exclusivamente gay
Um grande número de homens gays foi internados juntamente com prisioneiros políticos em outras pequenas ilhas, como Ustica e Lampedusa, mas San Domino foi única em que todos os exilados eram gays. É extremamente irônico, levando em conta a situação na Itália daquele tempo, que os gays pudessem encontrar um certo grau de liberdade apenas em uma prisão numa ilha.
Na celebração dos gays ativistas de direitos humanos, que se reuniram no arquipélago há algumas semanas, foi inaugurada uma placa em memória dos exilados. O marco será uma lembrança perene da perseguição de Mussolini contra homossexuais na Itália.
"Isto é necessário, porque ninguém sabe o que aconteceu naqueles anos", disse um dos ativistas, Ivan Scalfarotto, que também é membro do Parlamento, em Roma. Ele afirma que a comunidade gay ainda sofre na Itália. Os homossexuais não são mais presos e despachados para ilhas, mas até mesmo hoje em dia eles não são considerados cidadãos "classe A".
Para Scalfarotto, ainda existe o estigma social ligado à homofobia na Itália, já que o Estado não estende todos os direitos civis a casais homossexuais. Por isso, Scalfarotto acredita que a luta pela igualdade continua na Itália.
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A ILHA DE FELIZ SEM ANO E SEU INTRUSO, E, NÓS TAMBÉM. (apenas um re-conto) http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/05/a-ilha-de-feliz-sem-ano-e-seu-intruso-e.html

segunda-feira, 11 de março de 2013

HISTÓRIA/ESCRAVIDÃO - A Abolição não incluiu os negros no trabalho (USP)

Após abolição, negro foi excluído do mercado de trabalho


*(imagem - foto em preto e branco com duas pessoas negras, uma sentada e outra em pé segurando um guarda chuva - que faz parte da matéria: Lei Municipal de 1886 proibia os escravos de exercerem algumas profissões)

Entre 1912 e 1920, a população negra da cidade de São Paulo perdeu postos de trabalho, foi prejudicada por leis municipais que de forma explicita ou não a proibiam de exercer certas profissões, além de ter sido retirada de terras onde desenvolviam a agricultura de subsistência. “Esses fatores podem ser considerados indícios de que houve uma construção ideológica gestada pelas elites que visava a exclusão do negro da sociedade brasileira”, aponta o pesquisador Ramatis Jacino, professor do ensino médio, em sua tese de doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.


Jacino analisou cerca de 43 mil boletins de ocorrência emitidos na cidade na segunda década após a abolição da escravatura, entre 1912 e 1920. “Com o fim da escravidão, os únicos documentos oficiais que mencionavam a cor da pele e a profissão exercida eram os boletins de ocorrência da polícia”, explica. O pesquisador também analisou anúncios de jornais da época e alguns processos criminais.
No mestrado, que abordou o mesmo tema, a análise esteve focada na população negra que vivenciou o período pré e pós abolição. Jacino pesquisou os anos de 1872 e 1890 (datas em que houve recenseamento na cidade) e pode verificar quais profissões os negros exerciam na época. A maioria eram ligadas à baixa qualificação e mal remuneradas: trabalhadores domésticos, criados, ama-secas, jornaleiros, carregadores, operários da construção civil, artíficies, parteiras, etc, mas havia também alguns jornalistas, professores e intelectuais.
Já no doutorado, sob a orientação da professora Vera Lúcio Amaral Ferlini, da FFLCH, o foco foi a primeira geração de negros que nasceu após a abolição. O pesquisador comparou os dois períodos e ficou surpreso ao perceber que, de 1912 a 1920, com a industrialização da cidade, os negros haviam perdido as ocupações que antes exercia. Profissões de ama-seca, domésticas e criados começaram a ser exercidas por imigrantes. Isso levou a um processo de marginalização da população negra.
Exclusão legalizada
Para o pesquisador, esse processo de exclusão ocorreu devido a três fatores. O primeiro foi a promulgação de uma série de leis que proibia, de forma implícita ou explícita, que escravos exercessem certas profissões. “Em 1886, por exemplo, uma lei municipal determinava que as profissões de cocheiros, aguadeiros [que carregavam baldes d’água], caixeiros viajantes e guarda-livros[contadores] não poderiam ser exercidas por escravos”, explica.
O segundo motivo é que muitos escravos libertos, antes da abolição, se dedicavam à pecuária e à agricultura familiar de subsistência em lotes de terra pela cidade. Porém, o poder público determinou que esses lotes deveriam ser concedidos aos chamados “homens bons”, ou seja: brancos, cristãos e pais de família. Os negros – todos excluídos desse critério – foram obrigados a abandonar as terras e a se mudar para outras regiões: as mais remotas da cidade.
O terceiro motivo é que uma série de leis gerais acabaram por marginalizar os negros. A Lei de Terras, de 1850, determinava que a posse da terra seria feita mediante a compra. No Império, as terras eram divididas por meio de sesmarias e muitos posseiros eram brancos pobres, índios, caboclos e negros. Com a Lei de Terras, a maioria teve dificuldade em comprar os lotes.
Segundo o pesquisador, muitos empregadores publicavam em jornais anúncios de oferta de emprego. Na maioria, explicitavam a necessidade de o candidato ser branco e imigrante (italiano, alemão), etc. “Em anúncios de grandes empresas da cidade, não encontrei um texto explícito sobre a cor do candidato. Entretanto, na composição do quadro de funcionários, a maioria era estrangeiro e havia pouquíssimos negros”, comenta.
Mito fundador
Durante o Império (1822-1889), diz Jacino, o mito fundador do Brasil era representado pela união de brancos, negros e índios na luta contra os invasores holandeses, nas figuras de Antonio Felipe e Clara Camarão (índios), Henrique Dias (negro) e Matias de Albuquerque (português).
Já na República, proclamada em 1889, esse mito foi alterado pelas elites e a formação do Brasil passou a ser associada à índia Bartira e ao português João Ramalho. “É mais um indício de que a intenção das elites era excluir a figura dos negros da história da fundação do país. O índio era considerado como o “bom selvagem”; já o negro era o “mau selvagem” “, diz.
Na transição do trabalho escravo para o assalariado, intelectuais da Faculdade de Direito de São Paulo, da Faculdade de Direito do Recife, da Escola de Medicina na Bahia e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) foram construindo um discurso ideológico que foi apropriado pelas oligarquias de que a população negra não era adequada para o trabalho assalariado; que a miscigenação levava à doenças; e que os negros tinham problemas de caráter e que sua idade mental era inferior a dos brancos. “A meu ver, esse discurso tinha a intenção de branquear a sociedade. Para as elites, a sociedade moderna e capitalista que eles almejavam precisava ser branca”, finaliza.
Imagem: Wikimedia Commons
fonte - AGÊNCIA USP - http://www.usp.br/agen/?p=130331
Mais informações - e-mal rama@usp.br com Ramatis Jacinto
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INCLUSÃO, RACISMO E DIFERENÇA http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/inclusao-racismo-e-diferenca.html

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

PESSOASCDEFICIENCIA/FOTOGRAFIA - Exposição Vidas em Cenas no Memorial da Inclusão SP

Exposição apresenta cenas da vida de pessoas com deficiência na capital paulista 
Daniel Mello
Repórter da Agência Brasil
São Paulo – O namoro no banquinho ao pôr do sol, o casamento, uma conversa na rua. Essas são algumas das cenas da exposição Vidas em Cenas, que retrata momentos da vida de pessoas com deficiência e pode ser vista até o dia 31 de março no Memorial da Inclusão, zona oeste paulistana. “As pessoas ditas normais olham para a pessoa deficiente com dó, como se não pudesse casar, não pudesse ser feliz”, destaca a modelo e atriz Priscila Menucci, uma das retratadas na exposição.
A foto favorita de Priscila não é, no entanto, a sua própria, posando ao lado de manequins. Ela gosta muito da imagem que mostra o casamento de uma cadeirante. Para ela, uma comprovação para quem ainda duvida da felicidade das pessoas com deficiência. O riso permeia até o trabalho da atriz, que prefere atuar em comédias, seja no teatro ou na TV. “Prefiro o humor, chorar todo mundo sabe fazer”, diz a artista que tem nanismo.
A curadora do Memorial da Inclusão, Elza Ambrósio, explica que as 12 fotos fazem uma espécie de linha do tempo da pessoa com deficiência. “Desde muito cedo, criança, passando pela adolescência, vida adulta, escola, na vida profissional, namoro, casamento até velhice”, explica.
A exposição temporária é, segundo Elza, uma forma de receber o trabalho de outras pessoas que também se esforçam em prol dos direitos das pessoas com deficiência. “A ideia central do Memorial da Inclusão é falar do movimento social da pessoa com deficiência”, ressalta.
A curadora acrescenta ainda que tanto a exposição fotográfica, quanto a exposição permanente, que apresenta as conquistas dos deficientes no Brasil, podem ser apreciadas por qualquer pessoa. “Trabalhamos com desenho universal. Todas as pessoas que chegam neste espaço tem mobilidade. Se entra uma pessoa cega e que apreciar todos os painéis, ela pode ir sozinha, porque tem o piso tátil”, exemplifica. Além de serem de altura apropriada para cadeirantes, os painéis do memorial contam com audiodescrição e textos em braile.
Edição: José Romildo
http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-02-10/exposicao-apresenta-cenas-da-vida-de-pessoas-com-deficiencia-na-capital-paulista