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domingo, 24 de novembro de 2013

SAÚDE MENTAL/MANICÔMIOS - Descoberta de celas de tortura revela o Hospital de Neuropsiquiatria Infantil em BH

Hospital psiquiátrico infantil abrigou salas de tortura em BH

Hospital psiquiátrico infantil abrigou salas de tortura em BH
(imagem - foto de uma cela forte, um cubículo, agora em escombros, que servia para o castigo e a reclusão de pessoas, jovens com sofrimento psíquico, durante longo tempo, como parte da história de um manicômio, mais um, em Minas Gerais - fotografia colorida de Priscila Musa)

Mais que o glamour de um prédio de arquitetura neoclássica, o casarão construído na rua Manaus, 348, no bairro Santa Efigênia, esconde uma fase de clausura, terror e sofrimento de pequenos internos entre os anos 1947 e 1979 – período no qual a edificação abrigou um Hospital de Neuropsiquiatria Infantil.
Este é um espaço de sofrimento e essa história precisa ser contada”, exige, comovido, um ex-paciente do hospital, que pede anonimato. Já aposentado, o homem revela que foi internado na unidade de saúde aos 5 anos de idade.
“Eu só estou vivo porque consegui fugir pelo telhado. Eu ouvia os gritos das pessoas e muitas vezes passei pelo eletrochoque”.

Memória
Entre os escombros do casarão, que ficou fechado por quase duas décadas, há um corredor de 182 metros de extensão localizado no primeiro andar. Lá, são encontrados cômodos de aproximadamente 15 metros quadrados, com paredes cheias de rabiscos de pequeninas mãos, nomes e desenhos. Não há circulação de ar porque as janelas foram lacradas com tijolos. Um ambiente que causa desconforto físico e moral - tortura, segundo definição no dicionário da Academia Brasileira de Letras.

No final do corredor há outra pequena abertura. A partir dela, descobre-se um labirinto que chega em novas celas, algumas com grades nas janelas lacradas com cimento. Frascos de remédio, ferramentas, sapatos de criança e brinquedos estão espalhados pelo chão.
Eu não apanhava tanto porque ficava muito quieto, mas as crianças mais agitadas iam para o primeiro andar. Algumas não voltavam mais. Os médicos diziam que a família os tinham buscado, mas eu nunca soube se isso era verdade”, conta o ex-interno.

O presidente da Fundação Mineira de Psiquiatria, Maurício Leão, afirma que ambientes insalubres, como os descritos acima, podem prejudicar a saúde mental. “É por isso que hoje a vigilância sanitária é tão severa em suas fiscalizações”.

Descoberta
O desvendar desse espaço até então desconhecido só começou a ser feito há 30 dias, quando artistas e intelectuais ocuparam o casarão, batizado de Espaço Comum Luiz Estrela .Logo nos primeiros dias, criou-se um grupo composto por uma arqueóloga, um historiador e uma arquiteta. Imediatamente eles fecharam a entrada para os espaços apontados como sítio arqueológico urbano.

“Cada cômodo que encontramos é como um arquivo com documentos. É preciso avaliar com cuidado um a um, em um trabalho que exige minúcia e responsabilidade”, explica a arqueóloga Camila Jácome. Como legítimo guardião da memória, o grupo trabalha em um projeto de pesquisa que será apresentado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) nos próximos dias.

Eletrochoques eram comuns

A partir dos anos 1930 e até o fim da década de 1970, tratamentos como a lobotomia e o eletrochoque eram comumente utilizados em hospitais psiquiátricos. O presidente da Fundação Mineira de Psiquiatria, Maurício Leão, reitera no entanto que ambos são tratamentos que contribuíram para a evolução da medicina. “Em alguns casos, evidentemente, esses tratamentos foram usados com recursos e de maneira distorcida, mas têm em sua essência o dever de contribuir para a qualidade de vida do ser humano”, explica ele. Hoje a psicocirurgia é considerada como a evolução da lobotomia e o eletrochoque ainda é utilizado em muitos casos.


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OS MORTOS-VIVOS DO HOSPICIO QUE ENSINAVAM AOS VIVOS SOBRE A VIDA NUA... BARBACENAS NUNCA MAIS! http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/10/os-mortos-vivos-do-hospicio-que.html

domingo, 3 de novembro de 2013

DIREITOS HUMANOS/TORTURA - Chileno torturado e exilado receberá indenização e prova da Ditadura Pinochet

Sobrevivente de tortura em campo no deserto do Chile recebe indenização inédita

Um homem de 80 anos que foi torturado e exilado durante o governo militar de Augusto Pinochet no Chile ganhou uma inédita batalha legal por indenização do Estado chileno.
(imagem - foto colorida de um homem, idoso, como óculos, o Sr. Leopoldo Garcia, que foi torturado e exilado do Chile, e será o primeiro a receber uma indenização do Governo chileno, como prova das violências de Estado que lhe deixaram cicatrizes físicas e psicológicas indeléveis - fotografia BBC)

Leopoldo Garcia, que vive na Grã-Bretanha, entrou com uma ação na Corte Interamericana de Direitos Humanos por danos morais, alegando que o Estado chileno foi responsável por forçá-lo a exilar-se em 1975.
Segundo o correspondente da BBC em Santiago, Gideon Longo, essa é a primeira vez que o tribunal se pronunciou sobre o caso de um sobrevivente ainda vivo de abusos dos direitos humanos durante a era Pinochet.
Advogados dizem que a decisão pode abrir precendentes para cerca de 200 mil outras pessoas que fugiram do Chile durante a ditadura, que durou de 1973 a 1990.

Campo no Atacama

Leopoldo Garcia era um socialista que foi preso por suas crenças políticas em setembro de 1973, cinco dias após o golpe que levou Pinochet ao poder.
Ele foi torturado e preso por mais de um ano e meio, o que o deixou permanentemente incapacitado por conta de danos na coluna.
"Eu estou vivo", ele disse à BBC. "Mas é uma vida muito sofrida".
Garcia, que ficou preso no notório campo de concentração Chacabuco, no deserto do Atacama, depois de ser torturado, diz que o pior momento foi quando soldados ameaçaram atirar nas costas de sua filha de seis anos, e depois matá-lo.
Ele não tem os dentes da frente, e usa aparelho auditivo, seu rosto carrega a cicatriz da coronhada que levou na testa, e ele sente dores constantes das surras que sofreu.

Tribunal

Em 1975, ele foi expulso do Chile por decreto ministerial, e vive na Grã-Bretanha desde então.
Garcia afirmou que o Estado chileno foi responsável por forçá-lo ao exílio e, portanto, ele deve ser indenizado.
Ele disse que a pensão que recebe do Chile - decorrente do fato de que ele perdeu o emprego durante a ditadura - não foi suficiente para cobrir suas despesas no exílio, e que ele e sua família não têm acesso aos benefícios de saúde e educação que estão disponíveis para vítimas de tortura que vivem no no país.
Em um comunicado à imprensa sobre a decisão, a Corte Interamericana de Direitos Humanos disse que decidiu em favor de Garcia por causa da "demora excessiva por parte do Estado em iniciar uma investigação depois que ficou ciente dos fatos de tortura".
Segundo o tribunal, o Estado chileno tomou conhecimento do caso em 1994, mas a investigação só começou em 2011.
O Tribunal ordenou que o Chile termine sua investigação em tempo razoável e pague indenização por danos morais à Garcia.
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O ESTATUTO DO HOMEM E O DIA INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2009/12/o-estatuto-do-homem-e-o-dia.html

sábado, 17 de agosto de 2013

DIREITOS HUMANOS/TORTURA - Livro faz histórico da Operação Bandeirantes com o DOI-COI nos Anos de Chumbo

"PARA QUE NUNCA MAIS ACONTEÇA"  - Livro de Mariana Joffily 

Pau de arara
(imagem - foto em preto e branco, com um homem negro preso ao que se chama de Pau de Arara, um ferro suspenso, ferramenta de Tortura,onde se aprisiona a pessoa com as mãos amarradas sobre as pernas dobradas e presas ao ferro, deixando a pessoa vulnerável e exposta aos torturadores. Foi usado na Ditadura Militar e, lamentavelmente, ainda persiste com meio de tortura no Brasil - fotografia de difusão da matéria)

"Na relação do torturador com o torturado a única coisa que não pode acontecer é você falar 'não falo'. Se você falar 'não falo', dali a cinco minutos você pode ser obrigado a falar, porque eles sabem que você tem algo a dizer" (trecho do depoimento de Dilma Rousseff, sobre a tortura sofrida durante o período militar no Brasil)

  por Patrícia Beloni


A atual presidente e outros ex-prisioneiros e vítimas desse regime contribuíram com suas histórias para a produção do livro No Centro da Engrenagem – Os Interrogatórios na Operação Bandeirante e no DOI-CODI de São Paulo (1969-1975), de Mariana Joffily. A produção é fruto da tese de doutorado em História Social, na USP, constituída por uma coletânea do Prêmio de Pesquisa Memórias, com base no Dossiê 50-Z-9, composto por 5.419 sessões, com 1.324 pessoas inquiridas.

Não é de hoje a busca pelo acesso aos arquivos e aos documentos oficiais que possibilite melhor esclarecer o funcionamento dos aparatos repressivos durante a ditadura militar, em especial o envolvimento das forças armadas, explica o professor Sérgio Adorno, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que redigiu a apresentação da publicação. 

Tanto a sociedade civil quanto a sociedade política têm se mobilizado para evitar o esquecimento das graves violações de diretos humanos cometidas contra a dissidência política. O meio acadêmico não fica de fora. A necessidade de análises e estudos que explicassem como o golpe de Estado e seus desdobramentos foram possíveis ampliou a atuação do meio acadêmico, do qual este livro faz parte, complementa Adorno.

Dentro da engrenagem 

“Com o seu livro, Mariana Joffily nos ajuda a entender por que o passado ainda não passou no Brasil”, palavras do professor Luiz Felipe de Alencastro, da Cátedra da História do Brasil da Universidade Paris Sorbonne e autor do prefácio da publicação. A pesquisa de Mariana surgiu a partir de um duplo questionamento dos tempos militares: qual a funcionalidade desses interrogatórios na engrenagem da repressão? Em que medida tais interrogatórios esclarecem o funcionamento desses órgãos, seu papel, alcance e resultados pretendidos?

Com base nessas dúvidas, o livro tornou-se um trabalho historiográfico e científico, que toma por base os interrogatórios preliminares de militantes das diversas tendências de esquerda, acusados de subversão, realizados no âmbito da Operação Bandeirante e do DOICODI, em São Paulo, no período de 1969-1975. São dados, depoimentos e análises em conjunto com os diálogos dos principais estudiosos do campo, com referências bibliográficas dos últimos 30 anos, que tentam elucidar um período da história do País que ainda não teve um ponto final.

O livro tem quatro capítulos que questionam e analisam esses interrogatórios, acompanhando minúcias, detalhes, cada passo, cada gesto, com as técnicas e linguagens dos repressores. “Difícil não imaginar a partir da leitura da transcrição minudente desses interrogatórios o que se passava nas salas, os movimentos em torno das sessões, o claro-escuro da ambientação, o tom das vozes, as ameaças, os gritos dos torturados, os jogos de palavras capazes tanto de extorquir confissão quanto arrependimento dos inquiridos, o sadismo dos interrogadores”, diz Adorno, também coordenador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP.

O livro se inicia com a descrição de outros estudos das razões que motivaram a criação da Operação Bandeirante e, em seguida, do DOI-CODI e suas fronteiras entre o legal e o ilegal. O ponto alto são as análises das dimensões discursivas do interrogatório. É nesse meio que a autora busca descobrir uma rede de diferentes atores, operações, estruturas, processos e rotinas de funcionamento da repressão, revelando as sutilezas do aparato em obstinada vontade de saber e de poder, e, por fim, a funcionalidade da tortura e suas técnicas. “Estudos como este contribuem decisivamente para romper silêncios, combater essa sorte de aquiescência para com a tortura e, na melhor das hipóteses, buscar alternativas em lideranças políticas jovens capazes de reconstruir, sob o signo da memória e da verdade, os elos entre o passado e o presente”, completa o professor Sérgio Adorno.

O livro
Mariana Joffily 
No Centro da Engrenagem – Os Interrogatórios na Operação Bandirante e no DOI-CODI de São Paulo (1969-1975)
São 
Paulo, Edusp, 2013, 352 págs.

Fonte: Jornal da USP Online  http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=11&id_noticia=221442

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ONDE NASCEM E MORREM OS DIREITOS HUMANOS? http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/11/onde-nascem-e-morrem-os-direitos.html

domingo, 7 de abril de 2013

TORTURA/MEDICINA - Em tese de mestrado advogada afirma que médicos ainda atuam nas torturas no mundo

Entrevista: Medicina continua a serviço dos crimes de tortura em todo o mundo

Por conhecer a fisiologia da dor, o médico pode sofisticar os métodos, explorar fraquezas e fobias, ‘ressuscitar’ a vítima, mantê-la viva para o prosseguimento do interrogatório e falsificar um atestado de óbito
Entrevista: Medicina continua a serviço dos crimes de tortura em todo o mundo

(imagem - foto colorida do Monumento em Recife, PE, com uma figura que representa a posição de um ser humano submetido à tortura em um "pau-de-arara", com as pernas cruzadas sobre o peito, sendo atravessada simbolicamente por uma haste que prende suspensa sob um placa de aço - fotografia de Marcussrg- Flickr)
São Paulo – Apesar de mudanças na lei em diversos países, criação de códigos de ética e avanços no campo dos direitos humanos e do Direito Internacional, os crimes de tortura não só continuam a ser praticados como método de obtenção de informação com uso da força como ainda contam com o respaldo da Medicina – um elemento indispensável no aprimoramento da prática. A constatação é da advogada Virginia Novaes Procópio de Araujo, que durante dois anos pesquisou o ato médico no crime de tortura para sua dissertação de mestrado pela Faculdade de Direito da USP. 
“Durante a Segunda Guerra Mundial, o papel do médico era criar uma ‘linha de produção da morte’ que aparentasse algo científico. Hoje, podemos dizer que a maleficência médica ‘evoluiu’ no sentido de aprimorar a obtenção de informações com menores danos físicos e, portanto, menos evidências de tortura”, disse a Virginia.
Segundo ela, procedimentos hoje classificados como meio de obtenção de informação de segurança nacional são, na verdade, atos de tortura mascarados, brechas legais encontradas para justificar o uso da força, com participação decisiva dos médicos. “Na atual guerra norte-americana contra o terrorismo, por exemplo, a Cruz Vermelha não teve acesso aos prisioneiros, o que evidencia desrespeito dos médicos ao Protocolo de Istambul, que obriga a documentação de abusos a que foram submetidos os prisioneiros do exército, e o pedido de ajuda internacional”, disse. “Estes profissionais também violaram seu papel de médico de guerra, conforme expõe as Convenções de Genebra, que prevê auxílio de saúde para todos, inclusive inimigos.”
Para a advogada, os médicos incorrem em comportamento maleficente e violam o seu próprio código de ética ao utilizar conhecimentos técnicos para aprimorar métodos de tortura e contornar a lei, seja reduzindo evidências de danos físicos aparentes dos torturados, seja compartilhando informações obtidas em exames que revelem fraquezas físicas e psicológicas dos torturados a serem exploradas, ou até mesmo falsificando atestados de óbito. 
Conforme ela, relatórios recentes das organizações Médicos pelos Direitos Humanos e Comitê Público contra Tortura, de Israel, denunciam o comportamento maleficente de médicos envolvidos nesses crimes naquele país, onde a própria Suprema Corte parece aceitar uso de força física em interrogatórios com a justificativa da necessidade de obter informação "para o salvamento de vidas".
“Em similar postura, a existência do Centro de Detenção de Guantánamo, em Cuba, onde os Estados Unidos mantêm centenas de prisioneiros de guerra, é um forte indício de que a tortura continua a ser praticada pelos norte-americanos, sob o nome de ‘técnicas reforçadas de interrogatório’”, apontou. Conforme ela, o relatório oficial da CIA [Agência Central de Inteligência dos EUA] sobre essas técnicas afirma ser indispensável a presença de um médico e um oxímetro para avaliar a quantidade de oxigênio do interrogado e eventual risco de morte no método ‘afogamento simulado’. "Apesar de o presidente norte-americano Barack Obama ter admitido que essa prática não seja mais utilizada, pouco se sabe do que ocorre em Guantánamo”, completou.
Na entrevista a seguir, Virginia dá mais detalhes sobre a aliança entre a Medicina e a tortura. Confira os principais trechos.
A tortura depende da medicina?
Conforme o autor norte-americano Steven H. Miles, ela não existe sem um médico. Por conhecer a fisiologia da dor, ele pode sofisticar os métodos, explorar fraquezas e fobias, ‘ressuscitar’ a vítima, mantê-la viva para o prosseguimento do interrogatório e até falsificar um atestado de óbito para ocultar a tortura cometida. Para isso geralmente realçam algum traço de saúde do ‘paciente’, como problemas cardíacos, que podem justificar um ‘infarto’.  Na guerra contra o terror, quando se lia ‘morte por causas naturais’, podia-se concluir se tratar de morte por tortura.
Como a medicina tornou-se cúmplice dos torturadores?
No século 16, o rei espanhol Carlos V teria ordenado a médicos avaliassem a resistência de réus a uma sessão de tortura. Mas o primeiro registro oficial da participação médica data de 1532, para determinar métodos que não matassem uma pessoa doente e fraca. Até o século 18, torturar era legítimo e os médicos eram representantes das autoridades, embora não agissem diretamente. Já a partir do século 20, eles passaram a ter um papel ativo. Além da dor física, passaram a utilizar aspectos psiquiátricos, farmacológicos e psicológicos. A lavagem cerebral foi aperfeiçoada com a privação de sono, simulação de execução, isolamento, ameaças e observação da tortura alheia – técnicas que não deixam vestígios.
Médicos torturadores são comuns em todas as culturas?
Conforme as informações obtidas, oriente e ocidente tiveram o mesmo grau de crueldade. Os soviéticos torturavam seus opositores. Mas a atual medicalização da tortura só chamou a atenção no início dos anos 1970, com denúncias da imprensa. Na Segunda Guerra, médicos japoneses submetiam os presos, ainda vivos e sem anestesia, a amputações e dissecação de órgãos, além de experimentos com armas biológicas, enquanto que os alemães experimentavam métodos de esterilização, programa de eugenia, práticas de extermínio e falsificavam os atestados de óbito. Como Mengele, com experiências genéticas terríveis que buscavam o ‘ser humano perfeito’, a raça superior, a até mesmo uma forma para colorir de azul a íris. Autor de inúmeros crimes, ele conseguiu fugir e viveu por mais de 35 anos em países como Paraguai e Brasil, escondido por simpatizantes de ideias nazistas. Há informações de que morava no Brasil em 1979, quando morreu afogado no mar após sofrer um derrame. Muitos dos experimentos desses médicos serviam também para melhorar as condições dos soldados alemães. Fizeram cruéis experimentos de hipotermia, de pressão (para os pilotos de aeronave), contaminação por doenças, testes com bombas. Como se pode ver, na Alemanha nazista a atividade médica estava tomada pelas ideias de Hitler.
Como é a participação na 'guerra contra o terror'?
Durante a guerra contra o terror, seja em prisões no Iraque, no Afeganistão ou mesmo em Guantánamo, foi criado um novo termo para legalizar os métodos que aparentemente não traziam sofrimento e dor indispensáveis para a configuração do crime de tortura: técnicas reforçadas de interrogatório. Ou seja, entre outras práticas, prender a pessoa em uma caixa escura com a ameaça da colocação de um inseto que lhe causa fobia, forrar um tubo de PVC com plástico bolha para não deixar vestígios físicos de espancamento, jogar água num pano sobre o rosto de um preso deitado, para assustar e intimidar sem afogar de fato(waterboarding). Isso tudo na presença de médicos e psicólogos. Se o interrogado se feria ou tinha uma parada cardíaca, o médico estava lá para socorrê-lo. Se morresse, o legista adulterava o atestado de óbito. Segundo vítimas, o tratamento médico era frio e sem compaixão.
E no Brasil?
Até 1971, eram violentos castigos físicos. Depois, durante a ‘Operação Condor’, com técnicas criadas pela Agência Central de Inteligência (CIA), dos Estados Unidos, incorporaram o campo psicológico, com tortura em salas frias, escuras, com ruído de alta frequência, medicamentos hipnóticos, ou em salas brancas, muito iluminadas. O medo se aliou à força física. As sessões de castigos físicos eram precedidas pela tortura psicológica.
O que aconteceu com médicos torturadores brasileiros, como Harry Shibata e Amilcar Lobo?
Mal tive acesso aos documentos brasileiros. Um artigo do médico norte-americano Steven H. Miles, um dos maiores experts no tema, mencionava casos brasileiros. Nos sites do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) e Conselho Federal de Medicina (CFM), não se obtém nenhuma informação detalhada sobre Harry Shibata, por exemplo. Mas no site da Anistia Internacional há a descrição de que o médico teve sua licença cassada pelo Cremesp, em 1980, por seu envolvimento com tortura. Porém, em 1982, o CFM discordou do julgado regional e o Dr. Shibata teve a cassação anulada. Em 1995 o caso foi reaberto e até hoje se espera o conhecimento da sentença final. Uma fonte brasileira que me ajudou é o livro Desafia o nosso peito – resistência, tortura e morte durante o regime militar brasileiro: as quedas na guerrilha urbana e os desaparecidos na insurreição do Araguaia: subsídios para a Comissão da verdade, do psiquiatra e psicanalista Adail Ivan de Lemos. 
Há um capítulo sobre médicos brasileiros envolvidos na tortura durante a ditadura. Harry Shibata é mencionado, Amílcar Lobo também. Harry Shibata era médico legista, então era um “ocultador” de óbitos causados pela tortura. Por sua vez, Lobo participava diretamente na tortura. Ainda assim, é importante frisar que Lemos afirma, no começo de sua obra, que seu livro é fruto de extensa pesquisa bibliográfica e, apesar de publicado, está apto a eventuais correções, em razão de arquivos não abertos em mãos dos militares. E afirma que o mais importante é estabelecer debates para que, por meio deles, se aproximar da verdade histórica. 
 A quem cabe punir esses médicos?
Os médicos da Segunda Guerra foram julgados perante um tribunal de exceção. Alguns médicos nazistas se suicidaram. Dos julgados em Nuremberg, alguns receberam pena de morte, outros foram condenados à prisão e poucos foram inocentados. Alguns tiveram sua licença médica cassada. Acredito que o médico que se envolve com tortura viola seu Juramento Hipocrático, o código de ética médica de seu país, as noções éticas da Associação Médica Mundial, e os princípios da Bioética. Ademais, ajudam ou praticam um crime internacional. Por isso devem ser julgados perante uma corte criminal nacional ou internacional e também submetidos a procedimento disciplinar por seu Conselho de Medicina, desestimulando assim que outros médicos se envolvam com tortura. Como muitos países ocultam e protegem médicos torturadores, há a chamada sanção social, em que vítimas e a sociedade civil acabam denunciando os crimes. Mas defendo a apuração de um crime com o devido processo legal e investigatório. E na falta de documentação escrita e vestígios físicos, a palavra das vítimas devem ser levadas em consideração. 
Como devem ser punidos?
A participação médica deve ser devidamente apurada e, conforme o caso, punida com cassação da licença, detenção e reparação monetária para a vítima e sua família. As Cortes criminais e Conselhos de Medicina devem penalizar os culpados. A única forma de a nova geração de profissionais se dedicar apenas à Medicina é admitir o problema, divulgá-lo e unir esforços para a devida punição. Os estudantes de Medicina devem revisitar o passado para compreender o presente e prevenir o futuro de novos abusos e violações dos princípios bioéticos.
Como combater o crime de tortura?
O endurecimento de leis não inibe a prática criminosa, mas uma mensagem de não impunidade pode ser eficaz. A norma em si não impediria a tortura, mas sim o reconhecimento de que é inaceitável e que não se trata de um método de obtenção de informações fidedignas. Em sua obra “Dos delitos e das penas”, Cesare Beccaria já dizia que uma pessoa sob tortura confessa tudo, inclusive crimes que não cometeu.
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

TORTURA/DIREITOS HUMANOS - Nada justifica, mas ainda é "justificável" para Israel

 Governo isralense "justifica" tortura com "segurança nacional" 

Seis dias após Arafat Jaradat ser preso pelo exército de Israel e pelo Shin Bet (agência de inteligência israelense), ele estava morto. Entre o dia de sua detenção, 18 de fevereiro, e o dia de sua morte, 23 de fevereiro, seu advogado, Kamil Sabbagh, encontrou-se com Arafat apenas uma vez: perante um juiz militar, no centro Kishon de interrogatório do Shin Bet.


Israelense demonstra métodos de interrogatório 

*(imagem - descrição de foto do injustificável ato de tortura e interrogatório, onde um homem encapuçado por um saco preto, sentado e amarado com as mãos nas costas, por um outro homem é exemplo do que se constitui nessa prática, quando um sraelense demonstra métodos de interrogatório no Shin Bet )

Sabbagh disse que quando viu Jaradt, ele estava aterrorizado e tinha dito que estava em dor extrema, depois de ser espancado e forçado a sentar-se em posições estressantes, com suas mãos atadas para trás. 

Quando anunciou a morte de Arafat, o Serviço Prisional Israelense disse que o palestino, que deixa uma viúva e dois filhos, morreu de parada cardíaca. Entretanto, a autópsia subsequente não achou qualquer coágulo de sangue em seu coração. Na realidade, a autópsia concluiu que Arafat, que completou 30 anos de idade neste ano, tinha uma boa saúde cardiovascular.

O que o exame final achou, na verdade, foi que Arafat tinha sido espancado com golpes repetidos contra o seu tórax e corpo, e tinha um total de seis ossos quebrados na coluna, nos braços e nas pernas; seus lábios estavam lacerados e sua face severamente machucada. 

Essa classe de ferimentos sofridos por Arafat antes de morrer nas mãos do Shin Bet israelense é comum a muitos palestinos que passam pelas prisões de Israel. De acordo com a organização Addameer de direitos dos prisioneiros, desde 1967 um total de 72 palestinos foram mortos como resultado de tortura e 53 devido a negligência médica. Menos de um mês antes da morte de Jaradat, Ashraf Abu Dhra morreu enquanto estava sob a custódia de Israel, num caso que a organização considera resultado direto de negligência médica.

A impunidade legal do Shin Bet e as suas técnicas de tortura têm sido bem estabelecidas. Entre 2001 e 2011, 700 palestinos enviaram reclamações ao Escritório do Procurador do Estado, mas nenhuma foi investigada criminalmente. 

Escrevendo para a publicação de Adalah, de 2012, intitulada “Sobre a Tortura” (On Torture), Bana Shoughry-Badarne, advogado e diretor legal do Comitê Público contra a Tortura em Israel escreveu que “a impunidade do GSS [o Shin Bet] é absoluta.”

A Suprema Corte de Israel tem sido extravagantemente útil em assegurar ao Shin Bet essa impermeabilidade à responsabilização em relação ao direito internacional, assim permitindo a tortura generalizada e letal.

Em agosto de 2012, a Suprema Corte israelense rejeitou a petição submetida pela organização de direitos humanos israelense Adalah, a Associação pelos Direitos Civis em Israel para exigir que o procurador israelense Yehuda Weinstein leve adiante investigações criminais de cada alegação de tortura pelo Shin Bet.

Na primeira semana de fevereiro, duas semanas antes da morte de Arafat, a Suprema Corte de Justiça jogou fora a petição da Adalah que pedia a gravação de vídeo e áudio do Shin Bet de todos os interrogatórios, para cumprir com requerimentos da Convenção das Nações Unidas contra a Tortura (UNCAT, em inglês), da qual Israel é signatário.

Em maio de 2009, a UNCAT condenou Israel por não realizar as gravações dos interrogatórios conduzidos pelo Shin Bet, e ressaltou que tal monitoramento é essencial como medida preventiva para inibir a tortura. Entretanto, em 2012 o Knesset (parlamento israelense) estendeu ao Shin Bet a isenção da obrigatoriedade de gravar interrogatórios por mais três anos. 

Racionalizando sobre a falha com o cumprimento desse requerimento tão básico, de gravar os interrogatórios, o Estado mantém a alegação de que é pela proteção dos interesses da “segurança nacional” que as técnicas de interrogatório não são tornadas públicas. 

Arafat foi morto sob tortura. A tortura é rotineira. Mas o seguinte não é rotina: a partir do anúncio da morte de Arafat, milhares de palestinos, já unidos em solidariedade com a luta árdua levantada pelos prisioneiros palestinos em greve de fome, responderam com força. 

Ao menos 3.000 prisioneiros recusaram-se a alimentar-se; milhares saíram às ruas de Gaza e manifestações vigorosas apareceram por toda a Cisjordânia. Enquanto o Estado de Israel continua a lançar seu arsenal de armas letais para reprimir os palestinos, a banalidade da maldade desse regime é e sempre será eclipsada pela vontade poderosa dos palestinos pela autodeterminação.

Fonte: Al Jazeera
Tradução da Redação do Vermelho  fonte - http://www.vermelho.org.br/rj/noticia.php?id_secao=9&id_noticia=206740

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HOLOCAUSTO À BRASILEIRA – tudo pela Segurança ou retorno da “eliminação” pelo confinamento...http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/01/holocausto-brasileira-tudo-pela.html


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

SAÚDEMENTAL/DIREITOS - Órgão de combate à Tortura faz questionamento à Prefeitura no RJ

Saúde Mental/Direitos

Internação involuntária: Mecanismo de Combate à Tortura vai oficiar Prefeitura


A dificuldade de obter dados sobre a internação involuntária de adultos usuários de crack adotada pela Prefeitura do Rio de Janeiro no início desta semana levou membros do Mecanismo de Combate à Tortura, braço operacional do Comitê Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, a tomar a decisão de enviar ofício à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social solicitando dados sobre a medida.
O principal questionamento, segundo Fábio Simas, integrante do comitê, é quem foram os profissionais que elaboraram os laudos para justificar a internação involuntária de cerca de 30 usuários de crack, na última terça-feira (19).
Uma vistoria foi feita pelo comitê, por integrantes do Conselho Regional de Psicologia e Serviço Social do Rio, por equipes dos gabinetes do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) e do vereador Renato Cinco (PSOL) na Unidade Rio Acolhedor, o maior abrigo da Prefeitura, localizado em Paciência, na Zona Oeste. Na visita, um diretor e um coordenador da unidade informaram que os laudos foram emitidos por médicos de um posto de saúde de família que fica ao lado. 
Para a surpresa dos que vistoriavam o abrigo, ao bater na porta da clínica que fica ao lado, os profissionais negaram terem sido os responsáveis pela emissão dos laudos.
"Queremos saber da Prefeitura quem foram os médicos que elaboraram os laudos. Para isso, vamos mandar um ofício para a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social. Os dependentes só podem ser internados com laudo de médicos. Mas quem foram os médicos que fizeram estes laudos?", questiona Simas.
Para o vereador Renato Cinco, que tenta instalar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da internação compulsória na Câmara do Rio, esta questão dos laudos é grave e deve ser devidamente cobrada .
"Nos caso das crianças internadas compulsoriamente, as receitas médicas eram assinadas por enfermeiros. Precisa-se investigar se o mesmo não tem acontecido com os adultos", destacou Cinco. "É um absurdo as pessoas serem deslocadas para tão longe. Além do mais, o abrigo é muito mal localizado". 
Assessor classifica ação da Prefeitura como "sequestro"
Advogado assessor parlamentar do deputado estadual Marcelo Freixo, Thomas Ramos esteve na Unidade Rio Acolhedor nesta quinta-feira (21). Segundo ele, os relatos dos abrigados na unidade dão conta de que as ações da Prefeitura são mais parecidas com sequestros.
"As pessoas contam que os agentes vêm levando todos à força. As pessoas são sequestradas das ruas. Mesmo antes do laudo médico comprovar a necessidade de internação, todos são levados para o abrigo de triagem, em Paciência, a quilômetros de distância de onde são retirados. Alguns, depois de levados para o abrigo na Zona Oeste, não são internados à força, são liberados. Como já estão muito longe do local de origem, de que forma vão voltar sem nenhum recurso?", critica Ramos. "É uma política que serve apenas para limpar as ruas mesmo, para tirar os dependentes da visibilidade" , completa.  
FONTE - http://www.jb.com.br/rio/noticias/2013/02/21/internacao-involuntaria-mecanismo-de-combate-a-tortura-vai-oficiar-prefeitura/
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OS NOVOS MALDITOS E AS NOVAS SEGREGAÇÕES: da Lepra ao Crack http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/os-novos-malditos-e-as-novas.html


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

CINEMA@REALIDADE - A Hora Mais Escura e a naturalização da Tortura

A Hora Mais Escura reflete a América na guerra contra o terror


(imagem - foto colorida com uma mulher branca, norteamerica, de braços cruzados que tem sua sombra projetada em quadro onde a bandeira dos EUA está emoldurada.) 
Nas mais de 2 horas e meia de “A Hora Mais Escura”, sua protagonista Maya (Jessica Chastain), uma agente da CIA à caça de Osama bin Laden, nunca fala em capturar o terrorista. Sua clara intenção é somente uma: matar o líder da Al-Qaeda. Uma obsessão de morte que pode ser vista como espelho, no qual Maya se torna o reflexo daquilo que caça. Em seu terninho preto, dispondo de amplo aparato logístico e usando técnicas de tortura, ela personifica uma versão ocidentalizada do jihad islâmico. Não quer servir apenas como o escudo que defende, mas ser a espada flamejante que vinga os mortos da nação.
A personagem Maya, que Jessica Chastain (“A Árvore da Vida”) interpreta com devotado equilíbrio, talvez seja o principal elemento do filme sobre o qual recaia o peso de refletir a América em guerra contra o terror. Logo no início, vemos seu desconforto diante de uma sessão de tortura. Mas esse desconforto não impede que mais adiante ela mesma se mostre dura com o sofrimento do prisioneiro, por saber que ele tem a informação que ela precisa. Uma postura determinada que passa por cima do desconforto e revela sutilmente o abismo moral de sua conduta.
Depois de ter arrebatado seis Oscars em 2010 com seu “Guerra ao Terror” (incluindo Melhor Filme e Melhor Direção), a diretora Kathryn Bigelow abandona a aproximação quase intimista que havia no drama dos soldados de um esquadrão antibombas em operação no Iraque. Desta vez, Bigelow faz todo esforço possível para se manter distante e neutra, construindo um retrato que mescla fatos reais com cinema, ao retratar a caçada verídica ao terrorista Osama bin Laden.
Por isso, “A Hora Mais Escura” se aproxima do tom documental, especialmente no que se refere à sua montagem. Esta opção cria dois problemas. O primeiro diz respeito à polêmica. Pois no tom documental há uma clara omissão da diretora em emitir juízo de valor no que se refere às torturas mostradas no filme. Tem-se um registro frio de situações que aconteciam na época, o que não deixa de refletir a proposta. O segundo problema é que a opção resulta num filme frio, bastante prolixo e que sintetiza de forma irreal a passagem de tempo.
O aspecto prolixo já se prenuncia na extensa duração do filme. Por sua vez, a montagem encontra dificuldades em dar sentido a um registro que quer cobrir um largo espaço de tempo e de locais, mas que é apresentado de forma a dar poucos subsídios para o espectador assimilar onde e quando está ocorrendo o que se vê na tela. Não que as informações sejam omitidas, mas a dinâmica da ação tende a suprimir a noção do tempo despendido.
Um exemplo dessa deficiente amarração fica claro numa sequência em que agentes tentam localizar um suspeito através do seu sinal de celular. É elementar, pelos diálogos entre os agentes, que toda a operação levou meses para ser concluída. No entanto, a montagem realizada passa ao espectador uma sensação de poucos dias, o que causa certa discrepância entre o que se vê (a sensação de temporalidade que a imagem deve passar) e o que se sabe através dos diálogos.
Há também um número razoável de cenas que nada acrescentam ao andamento do filme. Servem, algumas vezes, para tentar criar empatia com algum personagem. Novamente sente-se a discrepância dessa opção em contraste com o tom sempre frio, quase distante, que o filme adota. Essas aproximações apenas travam a narrativa, roubando sua fluidez.
Por outro lado, “A Hora Mais Escura” funciona bem ao criar uma perspectiva da burocracia e dos intermináveis níveis hierárquicos da espionagem americana. Nesse aspecto, tem-se uma boa noção do emaranhado do poder, desde o campo de ação até a dependência de uma decisão presidencial. Em seu registro de bastidores da caçada ao homem mais procurado do mundo, o filme é bastante eficaz. Mesmo com problemas estruturais, serve como registro de um momento histórico.
A cena final, que pode dar a impressão de humanizar sua protagonista para além de sua obsessão em matar Osama bin Laden, é um ótimo reflexo daquilo que Maya simboliza, ainda que muito sutilmente. Há algo de humano em sua reação, mas também há algo de vazio no modo como ela encerra sua jornada.
O que parece ser alívio pode ser também o surgimento de um vácuo. Um vazio a ser preenchido. Mesmo com a missão cumprida. O que talvez seja a grande questão proposta ao fim da exibição.
FONTE - http://pipocamoderna.com.br/a-hora-mais-escura-reflete-a-america-na-guerra-contra-o-terror/232250