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sábado, 23 de novembro de 2013

SAÚDE MENTAL/MEMÓRIA- Cientistas estudam papel das recordações como terapêuticas para Alcoolismo e Depressão

Memória terapêutica

Cientistas descobrem que a depressão, o alcoolismo e a obesidade podem ser tratados com a ajuda das recordações dos pacientes 

A possibilidade de recorrer às lembranças armazenadas na mente para ajudar no tratamento de doenças é tema de um conjunto robusto de estudos recentes. Há experimentos nessa linha visando melhorar o tratamento da depressão, do alcoolismo e até para ajudar as pessoas a planejar melhor o seu futuro.
Monica Tarantino

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Um dos trabalhos mais interessantes foi feito pelo cientista Tim Dalgleish, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e teve como alvo a depressão. Primeiramente, Tim e seus colegas convidaram pacientes a reunir 15 recordações positivas. Pesquisas anteriores haviam indicado que recordar situações felizes melhora o humor de quem convive com a enfermidade. Além de comprovar esse dado, os pesquisadores queriam saber qual seria a estratégia mais eficiente para facilitar o acesso a esse banco de boas lembranças e mantê-las vívidas, uma vez que a doença tende a apagar seu brilho. Por isso, o segundo passo foi pedir aos voluntários que organizassem as lembranças empregando métodos diferentes. Enquanto uma ala associou suas reminiscências a um local ou objeto que pudesse ser usado como um gatilho para trazê-las à tona (a visão de um prédio no caminho do trabalho, por exemplo), a outra as agrupou por semelhança. “Aqueles que usaram a técnica de vincular as memórias a locais ou objetos tiveram resultados significativamente melhores”, concluiu Dalgleish.
Autora de pesquisas polêmicas, a psicóloga Elizabeth Loftus, da Universidade da Califórnia (Eua), estuda de que modo a criação de falsas memórias pode ser útil no controle do alcoolismo e da obesidade. Com esse objetivo, recrutou 147 universitários que se dispuseram a responder a um questionário sobre os seus alimentos e bebidas preferidos antes dos 16 anos. Foram também estimulados a relatar se alguma vez passaram mal após tomar muita vodca ou ingerir rum e questionados se isso realmente aconteceu.
Uma semana depois, receberam seus perfis traçados pelos pesquisadores. Embora a maioria dos textos se restringisse às informações dadas pelos jovens, alguns continham relatos falsos de enfermidades sofridas na adolescência por causa de consumo excessivo de rum ou vodca. Após recontar o que tinha acontecido e preencher outro questionário, cerca de 20% dos participantes realmente assumiram essas memórias inventadas como verdadeiras. A maioria deles reduziu o consumo da bebida associada ao mal-estar. Em trabalhos anteriores, a cientista havia constatado que pessoas que acreditam ter ficado doentes na infância por ter ingerido determinado alimento passavam depois a evitá-lo. “Imaginamos que usar essa engenharia da mente pode direcionar as pessoas para uma vida mais saudável”, disse a pesquisadora.
A estratégia de criar falsas memórias desperta críticas. Mas a cientista ressalta que esse pode ser um recurso para usar a maleabilidade da memória a nosso favor. “O que é preferível: um garoto saudável com um pouco de falsa memória ou com diabetes e obesidade?”, questiona Elizabeth. Experimentos como esse despertam a atenção da comunidade científica. “São pesquisas valiosas para se conhecer melhor os mecanismos da memória”, diz a neurologista Dalva Poyares, da Universidade Federal de São Paulo.
Na Universidade de Harvard (Eua), o cientista Daniel Schacter investiga as semelhanças entre o que se passa no cérebro quando lembramos de acontecimentos do passado e o que imaginamos para o futuro. Com exames de imagem, ele constatou que as duas situações mobilizam as mesmas áreas, como o hipocampo e o córtex pré-frontal. “Portanto, não é surpreendente que alguns desses eventos imaginados possam realmente se transformar em falsas memórias”, disse Schacter à ISTOÉ.
O cientista também estuda maneiras de fazer com que as pessoas comecem a usar o banco de lembranças para que consigam planejar o futuro e tomar as melhores decisões. “Quando usamos as informações guardadas na memória, ficamos mais propensos a ser menos impulsivos e mais ponderados nas decisões a longo prazo”, garante o pesquisador. No Brasil, o cientista Ivan Izquierdo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e mundialmente reconhecido por suas investigações sobre a memória, testa, em animais, métodos para impedir que lembranças traumáticas subam à tona. “No futuro, essas técnicas poderão ser aplicadas no tratamento de males como estresse pós-traumático, no qual é imprescindível lidar melhor com o evento que causou o problema”, explica Izquierdo.
Fotos: Rafael Hupsel/Ag. Istoé; Gilson Oliveira/Divulgação PUCRS f

sábado, 7 de setembro de 2013

EPILEPSIA/NEUROCIRURGIA - Na PUC de Porto Alegre, RS, neuroimagem ajuda a avaliar segurança para epilépticos

Exames de imagem tornam cirurgia no cérebro para portadores de epilepsia mais segura

No Instituto do Cérebro da PUC de Porto Alegre já é possível realizar um sofisticado exame que permite aos médicos estabelecer se é ou não possível operar uma pessoa epilética com segurança.


Um dia muito especial para Neusa Maria Gattelli, uma dona de casa gaúcha de 47 anos que sofre de epilepsia desde os 25 e agora tem uma possibilidade de ficar finalmente livre da doença.
“Uma em cada quatro pessoas que sofrem de epilepsia, de crises epiléticas recorrentes, que se repetem em frequência variável, apesar de fazer o uso da medicação adequada, ir ao seu médico e tudo mais, seguem tendo crises e essas crises impactam muito na qualidade de vida dessas pessoas”, afirma André Palmini, chefe do Serviço de Neurologia do Hospital da PUC-RS.
Foi o que aconteceu com Neusa. A doença foi limitando cada vez mais a vida dela. “Eu não posso sair sozinha, eu não posso viajar, eu não posso trabalhar”, conta a dona de casa.
O que ela vive é como se fosse uma criança adulta, sabe? A gente pensa que quer pegar para gente, repartir o problema dela, mas não tem como”, lamenta a irmã, Iris Maria Wagner, aposentada.
“A doença aumentou de uns tempos, os remédios não resolvem. Eles não me deixam cair no chão, mas eu perco consciência”, conta.
O cérebro comanda tudo o que fazemos, mas uma pequena falha nesse controle mestre pode transformar uma vida para sempre. É o que acontece com quem tem epilepsia. As causas podem ser muitas: uma pequena lesão durante o parto, uma má formação. O resultado? Uma desorganização dos sinais elétricos capaz de provocar sérias crises.
No Instituto do Cérebro da PUC de Porto Alegre já é possível realizar um sofisticado exame que permite aos médicos estabelecer se é ou não possível operar uma pessoa epilética com segurança.
O objetivo de qualquer neurocirurgia e especialmente na cirurgia da epilepsia é retirar o foco epilético, completamente, retirar o máximo então da doença e preservar o máximo do cérebro normal, para não causar sequelas novas. Tem áreas do cérebro que pode retirar 1mm, 2mm, 3mm, que não deixa sequela nenhuma e tem outras áreas que se retirar um centímetro a pessoa para de falar, por exemplo”, afirma Eliseu Paglioli, chefe do Serviço de Neurocirurgia do Hospital da PUC-RS.
É o desafio no caso da Neusa. Ela tem a doença do lado esquerdo do cérebro, o mesmo lado onde a maioria de nós tem a região da fala. Mas o cérebro do ser humano é capaz de tudo e quando se sente ameaçado pode reagir e criar outros caminhos para funcionar.
Ela pode ter desenvolvido a linguagem bilateral, então que pode retirar uma parte e não vai causar sequelas, ou a linguagem pode ter se mudado toda para o outro lado, ou em uma hipótese que vai inviabilizar a cirurgia dela é a linguagem continuar no lado esquerdo, na borda da lesão, ou seja, nesses casos não se pode operar, porque você vai causar uma sequela para a qualidade de vida dela”, explica o médico Paglioli.
Estou com bastante esperança em relação ao exame. Estou muito ansiosa, espero que resolva a minha vida! Vai resolver, eu tenho fé”, diz Neusa.
A decisão cirúrgica é um processo complexo que envolve psicólogos, médicos, linguistas. Neusa recebe um rápido treinamento. No exame ela vai ver as imagens através de um equipamento acoplado ao aparelho da ressonância. Cada vez que uma figura aparecer, Neusa deverá pensar sobre ela. O pensamento ativa a área da fala e a ressonância consegue captar isso.
As primeiras informações são promissoras: “Nós podemos ver que ela tem atividade de linguagem nos dois lados, isso é até bem comum em mulheres. A doença dela está localizada longe dessa área. Então se ela for realizar a cirurgia não vai comprometer a parte, a área de linguagem dela. Isso nos dá mais segurança ao cirurgião. Eu posso retirar essa área. Há esperança para essa paciente”, afirma Alexandre Franco, engenheiro biomédico da PUC-RS.
Em seguida, Neusa fez a cirurgia. Depois disso, não teve mais nenhuma crise.