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domingo, 20 de outubro de 2013

SAÚDE MENTAL/DIREITOS HUMANOS - Um enfermeiro busca romper correntes: Hienas e 'doentes mentais' na mesma jaula

Campanha quer por fim a uso de hienas para tratar doentes mentais na Somália

Richard Hooper
A Somália tem um dos maiores números de doentes mentais do mundo e com um sistema de saúde devastado por décadas de guerra, muitos pacientes não recebem qualquer tratamento. Muitos são acorrentados – em árvores ou em casa. Alguns são até trancados em jaulas com hienas. Mas um homem está tentando mudar este cenário.

paciente mental acorrentado | Getty
(imagem - foto colorida onde aparecem as mãos e pés de um homem negro que é um dos pacientes com doenças mentais que são acorrentados na Somália - foto BBC) 

Dr. Hab não é um psiquiatra. Seu nome real é Abdirahman Ali Awale, um enfermeiro que, após três meses de treinamento na Organização Mundial da Saúde (OMS), abraçou a missão de cuidar dos que sofrem de doenças mentais em seu país. Ele diz estar apto a tratar todos os tipos de distúrbios, desde depressão pós-parto à esquizofrenia.
Quem não quer fazer uma consulta com Dr. Hab pode fazer uma visita aos populares curandeiros que usam erva medicinais para tratar doenças mentais ou "sheiks" que ainda advocam curas tradicionais e normalmente barbáricas.
"Há uma crença na Somália de que hienas podem ver tudo, inclusive os espíritos malignos que as pessoas apontam como causadores das doenças mentais", diz ele.
"Em Mogadishu, é possível encontrar hienas que foram trazidas de bosques e famílias estão dispostas a pagar US$ 560 (R$ 1,2 mil) para trancar um ente querido junto com o animal dentro de um quarto durante a noite".

Mordidas

O "tratamento" com hienas - que custa mais do que as famílias ganham em média por ano – é brutal. Ao cravar suas garras e morder o paciente, a hiena estaria forçando os maus espíritos a deixar o corpo. Pacientes, inclusive crianças, já morreram em ataques do animal carnívoro.
"Estamos tentando mostrar às pessoas que isso não faz sentido", diz Hab. "Doenças mentais são como qualquer outra e precisam de métodos científicos para serem curadas", afirma.
A campanha do enfermeiro foi desencadeada por um incidente em 2005, quando ele testemunhou um grupo de mulheres com distúrbios mentais sendo perseguidas por jovens na rua.
"Depois disso eu decidi que teria de abrir o primeiro hospital psiquiátrico da Somália", relembra.
O Hospital Público de Saúde Mental (Habeb) em Mogadishu foi o primeiro dos seis centros que hoje Dr. Hab mantém toda a Somália, tendo atendido mais de 15 mil pacientes.
Ele enfrenta um grande desafio. A OMS estima que um em cada três somalis esteja ou tenha sido afetado por doenças mentais, bem acima da média global de um para dez. Em certas partes do país mais atingidas por décadas de conflito, este índice é ainda maior.
Dr.Hab diz que não dispõe de muitos recursos para tratar os pacientes, contando com doações de medicamentos por parte de ONGs e de farmácias particulares.

Acorrentados

Ele diz que é difícil fazer os pacientes entenderem que sofrem de problemas mentais. Problemas psicológicos são geralmente explicados como dores físicas – dores de cabeça, excesso de suor e dor no peito. Alguns conceitos nem existem na cultura somali. Depressão, por exemplo, se traduz como "os sentimentos de um camelo quando seu amigo morre".
Mas nada é mais indicativo sobre a falta de entendimento da população sobre doenças mentais do que a prática disseminada de acorrentar pacientes em árvores ou em quartos.
A ONG italiana GRT tem registros de pacientes que ficaram acorrentados até morrer.
"Eu mesmo já salvei muitos pacientes que foram abandonados pela família e ficam acorrentados esperando a morte", diz Hab, que percorre áreas rurais em uma van em busca de pessoas acorrentadas para libertá-las e conduzi-las a um de seus centros.
A OMS financia a iniciativa "Livre das Correntes" em uma tentativa de erradicar a prática, começando pelos hospitais. Mas o próprio Hab admite já ter acorrentado os pacientes mais agressivos.
Hab mostra uma planilha com todos os itens de que necessita em seus centros – novos colchões, comida para os pacientes e diesel para sua van. Segundo ele, há também uma carência de enfermeiros e psiquiatras qualificadas. A luta diária para prover o tratamento adequado para seus pacientes e o sofrimento que ele testemunha está claramente afetando sua saúde.
"É um trabalho muito difícil físico e mentalmente", diz ele. "Eu era saudável quando comecei e agora sofro de diabetes".
"Eu já chorei na TV, já chorei em público, já chorei diante de presidentes", diz ele.
"Até agora eu estou com vontade de chorar".
(imagem - foto colorida do 'Dr. Hab' com os braços erguidos e um sorrisso no rosto, de quem compreende essa outra dor: a dor psíquica de quem é violentado e acorrentado, e se torna a Vida Nua, qual uma hiena enjaulada - ver foto na matéria original)

LEIAM TAMBÉM SOBRE SAÚDE MENTAL, BIOÉTICA E DIREITOS HUMANOS NO INFOATIVO.DEFNET:

OS MORTOS-VIVOS DO HOSPICIO QUE ENSINAVAM AOS VIVOS SOBRE A VIDA NUA... BARBACENAS NUNCA MAIS! http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2013/10/os-mortos-vivos-do-hospicio-que.html

sábado, 6 de abril de 2013

SAÚDE MENTAL/MANICÔMIOS - Conselho Nacional de Justiça constata violações em Hospital de Sorocaba

CNJ mostra abandono de internados em hospital psiquiátrico de Sorocaba 

Um terço dos internados no Hospital Psiquiátrico Vera Cruz, em Sorocaba, interior paulista, não tem carteira de identidade. Segundo levantamento divulgado na quinta-feira pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 131 dos 405 pacientes estão sem o documento de identificação. Os dados mostram ainda que 77% não têm CPF e 46,9%, certidão de nascimento.
A falta de documentação é, para o conselheiro do CNJ, Silvio Rocha, um indicativo da situação de abandono dos pacientes. "A situação mais comum desse abandono está na falta de uma rede de assistência social e de saúde que acompanhe essas internações. No levantamento, percebemos que muitos ali não têm sequer documentos civis, como documento de identidade, CPF ou certidão de nascimento", destacou.
O Hospital Vera Cruz foi escolhido para o primeiro censo psiquiátrico do CNJ por causa das denúncias de maus-tratos. Em 2011, o Ministério Público Federal abriu uma investigação para apurar os casos de abuso e a unidade chegou a sofrer uma intervenção do Ministério da Saúde.
O abandono e a falta de vínculos sociais aparecem ainda em outros dados. A metade (49,8%) dos pacientes do hospital não recebe visitas. Em 31,3% dos casos não há informações sobre os parentes e da cidade onde residiam. Também não se sabe o motivo da internação de 51,6% dos casos e, em 29,38% dos prontuários constam como internação involuntária.
Sobre o tempo de internação, o levantamento indicou que 10,8% dos pacientes estão no hospital há mais de 25 anos, 55,5% há mais de dez anos e 88,4% há mais de um ano.
LEIAM TAMBÉM SOBRE O TEMA NO MEU BLOG INFOATIVO.DEFNET - 

ALÉM DOS MANICÔMIOS - 18 de maio/ Dia Nacional de Luta Antimanicomial http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2011/05/alem-dos-manicomios-18-de-maio-dia.html